Cancro da próstata: o efeito do chá verde

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Vários estudos sugerem que o chá verde tem um papel na diminuição do risco de cancro da próstata e como adjuvante no tratamento do cancro da próstata. Pensa-se que muitos dos possíveis benefícios sejam atribuídos aos polifenóis. Estes correspondem a um vasto grupo de fitoquímicos que incluem, entre outros, as catequinas. A epigalocatequina-3-galato (EGCG) é a catequina mais ativa presente no chá verde e tem sido muito estudada em células, animais e humanos.

Em estudos laboratoriais

A EGCG parece bloquear o efeito estimulador do androgénio em células cancerígenas da próstata, desacelerando a progressão da doença e aumentando a morte celular. Além disso, os polifenóis presentes no chá verde parecem apresentar efeitos anticancerígenos, aumentando a morte celular, através do bloqueio das histona deacetilases, as quais foram encontradas em grandes quantidades nas células cancerígenas.

Em estudos com animais

Por outro lado e considerando modelos animais criados para desenvolveram cancro da próstata, um grupo de investigadores forneceu água a um grupo de ratos e água tratada com catequinas de chá verde (equivalente a 6 chávenas de chá verde/dia) a outro grupo. Passadas 24 semanas, os ratos que ingeriram apenas água desenvolveram cancro da próstata, ao passo que os que ingeriram água com catequinas de chá verde apenas mostraram lesões de neoplasia prostática intraepitelial (PIN). Num trabalho semelhante, foi fornecida água com EGCG a ratos com 12 semanas e com 28 semanas de idade. A EGCG preveniu as lesões PIN de alto grau em ratos que começaram o tratamento mais cedo.

Noutro trabalho, ratos implantados com células de cancro da próstata foram injetados com EGCG ou placebo três vezes por semana. Os primeiros apresentaram níveis mais baixos de proteínas necessárias para a atividade do androgénio, o qual é estimulador paras as células cancerígenas da próstata.

Num estudo em que se dividiram os animais em dois grupos, tendo um sido submetido a ingestão de água e outro de água com polifenóis do chá verde, aqueles pertencentes a este grupo viveram mais tempo livre de doença. Os autores consideraram o início da ingestão em idades diferentes, verificando que os animais que iniciaram a toma mais cedo foram os que mais beneficiaram.

Já noutro trabalho, os autores concluíram que, em ratos aos quais foi administrada uma quantidade de polifenóis equivalente a 6 chávenas de chá verde por dia, o desenvolvimento do tumor foi mais lento. Além disso, verificou-se que os polifenóis causaram maiores níveis de morte de células cancerígenas, atrasando a metastização.

O papel do chá verde na prevenção e no tratamento: estudos em humanos

Além de trabalhos em células e em animais sobre o papel do chá verde na prevenção e como adjuvante no tratamento do cancro, foram desenvolvidos alguns em humanos, quer estudos epidemiológicos, quer ensaios clínicos.

  • Estudos epidemiológicos
    No que diz respeito aos primeiros, os resultados são controversos, já que alguns sugerem um efeito protetor no risco de cancro da próstata e outros referem não existir qualquer relação. Fatores alimentares, a localização geográfica, o consumo de tabaco e de bebidas alcoólicas, entre outros fatores podem estar na origem desta discrepância, requerendo-se mais investigação sobre o assunto.
  • Ensaios clínicos
    No que diz respeito a ensaios clínicos, foram realizados 2 trabalhos randomizados em homens com PIN de alto grau, em que aqueles que consumiram catequinas de chá verde apresentaram menores taxas de desenvolvimento de cancro da próstata que o grupo placebo. Estas conclusões sugerem que as catequinas podem diminuir o risco de cancro, em doentes de elevado risco para a doença.

Os trabalhos foram além da ação do chá verde na prevenção da doença, estudando-se, também, uma possível ação adjuvante no tratamento do cancro da próstata.

Doentes referenciados para prostatectomia radical foram divididos em três grupos; um ingeriu chá verde, outro chá preto e outro água com gás, todos cinco vezes por dia, durante cinco dias. Após análise das amostras de tecido da próstata, foram encontrados polifenóis biodisponíveis nas amostras dos doentes que beberam chá preto ou verde. Além disso, as células de cancro da próstata tratadas com sangue retirado de doentes após estes terem ingerido chá cresceram mais lentamente que as células tratadas com sangue de doentes antes destes o terem ingerido. Estes dados sugerem a importância da ação dos polifenóis na inibição do desenvolvimento da doença.

Noutro estudo, 50 doentes agendados para prostectomia radical foram direcionados para tomarem o equivalente a 800 mg de EGCG ou um placebo, diariamente, durante 3 a 6 semanas. Embora as diferenças não tenham sido significativas, o primeiro grupo de doentes apresentou níveis mais baixos de PSA e de IGF-1 (proteína associada ao aumento do risco de cancro da próstata) que o grupo tratado com placebo.

Doentes selecionados para prostatectomia radical foram divididos em três grupos de consumo diário de: chá verde, chá preto ou água. Verificou-se que, embora ligeira, apenas os homens que ingeriram chá verde mostraram uma redução dos níveis de PSA.

Por outro lado, um grupo de 19 doentes ingeriu cápsulas de extrato chá verde, numa quantidade equivalente a 375 mg de polifenóis/dia, durante 5 meses. Apesar do tratamento ter sido bem tolerado, não se verificou uma redução significativa dos níveis de PSA e todos os doentes viram a doença progredir passados 1 a 5 meses. Neste caso, o tamanho da amostra foi uma limitação importante.

Doentes com cancro da próstata metastizado consumiram extrato de chá verde (6 g/dia), até 4 meses. Os resultados sugerem que o extrato de chá verde pode ter benefícios limitados em doentes com cancro da próstata avançado. Contudo, também neste estudo, o tamanho reduzido da amostra foi uma limitação

Referências: PDQ Integrative, Alternative, and Complementary Therapies Editorial Board. Prostate Cancer, Nutrition, and Dietary Supplements (PDQ®): Health Professional Version. PDQ Cancer Information Summaries [Internet]. Bethesda (MD): National Cancer Institute (US). 2017. Disponível em https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK83261/#CDR0000719335__426. Acedido em 26/9/2017. Fontes de imagens: https://www.medicalnewstoday.com/articles/150086.php; http://www.healthline.com/nutrition/green-tea-and-weight-loss

 

 

Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.