É a arte que nos salva?!

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Depois de tanto tempo sem inspiração para escrever foi o “fenómeno Salvador Sobral” que me fez sair deste casulo onde me encontro. E é inevitável porque este foi um acontecimento que estranhamente me provocou uma reflexão profunda e me fez colocar uma infinidade de questões. O que levou tanta gente a sentir-se profundamente identificada com esta música, com esta letra, com o Salvador? O Salvador terá tido a intenção de tocar assim tão profundamente as pessoas? Ou foi apanhado neste fenómeno sem noção do impacto que iria ter? Em que medida alguém que é desafiado pela vivência de um determinado tipo de sofrimento (neste caso o problema de saúde do cantor) é capaz de despertar e fazer despertar os outros?

Não saberei seguramente responder a todas estas questões, tal como assumo que não sei verdadeiramente como prevenir o cancro ou qualquer outro sofrimento humano (o que aliás tem bloqueado a minha escrita). Talvez, porque tenho muito poucas certezas, mas uma delas é a certeza de que o sofrimento existencial é inevitável e seja através da doença, da perda, da frustração todos nos confrontamos invariavelmente numa ou noutra ocasião com esse sofrimento. Mas também tenho como verdade que o amor é uma necessidade universal e é em si mesmo curativo. A canção “Amar pelos Dois” tem esses dois ingredientes, fala de amor e de sofrimento e todos, de algum modo, conhecemos ambos. Esta canção toca no que é essencial e “obriga-nos” a despirmo-nos das nossas carapaças e entregarmo-nos a estas emoções que todos tão bem conhecemos. E nesta medida faz-nos sentir parte de um todo maior. Percebemos que a humanidade navega junta no mesmo barco à procura de refúgio e esse refúgio é o amor e a ânsia de ser amado. A arte em geral e a música em particular desempenham por isso o importante papel de nos fazer sublimar o nosso sofrimento existencial e de certo modo salvam-nos porque nos fazem reconhecer o que existe de mais intimo, indizível e universal em todos nós. E o que é universal é imortal porque vive em todos nós para sempre.

A Luísa e o Salvador imortalizaram-se com esta canção, mas não posso deixar de pensar que eles são apenas quem iluminou o caminho. O caminho que todos nós anónimos fazemos quando nos confrontamos com a deceção amorosa, com a perda, com a nossa finitude, com a frustração entre o que sonhámos ser e o que somos, no fundo com a nossa condição existencial. E à arte em geral e à música em particular cabe a nobre missão de nos lembrar que somos todos iguais num certo sentido. E ao cumprir essa missão a música transforma-nos e de certo modo salva-nos. É esta a grande dádiva dos poetas, dos músicos, dos pintores, dos bailarinos e todos os que nos presenteiam com a sua arte de forma genuína.

Photo credits:http://www.dn.pt/artes/interior/o-momento-magico-de-luisa-e-salvador-8476104.html

Rita Rosado

Sobre Rita Rosado

Rita Rosado licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa (1997). Concluiu o Mestrado em Ciências da Educação – Formação de Adultos em 2007. Trabalha na área de Orientação Profissional e o seu interesse pela problemática da prevenção do cancro aprofundou-se após a experiência que vivenciou enquanto familiar de doentes de cancro.