Recorrência do cancro da mama: dieta para prevenir

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Devido ao número crescente de sobreviventes de cancro, há que ponderar as intervenções com estes doentes, de modo a minimizar o risco de complicações e de recorrência, para aumentar a sobrevivência.

O maior número de trabalhos sobre esta temática incide no cancro da mama. A intervenção assenta em duas grandes abordagens: dieta pobre em gordura e dieta pobre em gordura mas rica em fruta e vegetais.

Dieta pobre em gordura

O estudo Women’s Intervention Nutrition Study (WINS) envolveu mulheres com cancro da mama, parte das quais incluídas, aleatoriamente, num grupo orientado para uma dieta pobre em gordura. Os resultados mostraram uma redução da recorrência do cancro da mama nestas participantes. Esta redução foi associada à perda de peso, que foi muito significativa neste grupo. No entanto, neste estudo, não se verificou uma relação entre uma dieta pobre em gordura e a sobrevivência, contrariamente ao verificado noutro estudo.

O consumo elevado de gordura parece estar associado a um risco aumentado de recorrência do cancro da mama, principalmente em mulheres pós-menopausa. Esta relação tem sido atribuída a um excesso de adiposidade corporal, o qual se relacionada com níveis adversos de compostos como o IGF-1, marcadores inflamatórios e hormonas sexuais, podem atuar para promover o crescimento e o desenvolvimento do tumor, reduzindo a sobrevivência.

Por outro lado, a acumulação de tecido adiposo, especialmente na região abdominal, aumenta os níveis sanguíneos de citocinas pró-inflamatórias, o que provoca um estado de inflamação crónica. Ora, este quadro tem mostrado contribuir para a angiogénese do tumor e para a formação de metástases.

Uma adiposidade elevada também contribui para o aumento dos níveis sanguíneos de aromatase, em mulheres com excesso de peso ou obesas com cancro da mama. Este facto é clinicamente significativo em doentes com recetores-estrogénio positivas, dado que contribui para um pior prognóstico.

Todavia, a relação entre o consumo elevado de gordura e um risco aumentado de recorrência do cancro da mama, não assenta apenas no tecido adiposo mas também nos efeitos da gordura da dieta. A ingestão excessiva de gordura parece contribuir para a carcinogénese, através da síntese de certos eicosanóides ou de compostos lipídicos que suportam o crescimento tumoral. Em dietas ricas em gordura animal, a abundância de ómega-6 pode ser usada para a produção de eicosanóides que promovem a inflamação e a angiogénese tumoral.

Dieta pobre em gordura e rica em fruta e vegetais

O estudo Women’s Healthy Eating and Living (WHEL) incluiu mulheres com cancro da mama, divididas aleatoriamente por dois grupos, à semelhança do estudo WINS. No grupo de intervenção, as participantes foram orientadas a efetuar uma dieta pobre em gordura e rica em fruta e vegetais. Os resultados não mostraram diferenças significativas na recorrência da doença, na sobrevivência e no peso, entre os dois grupos.

Contudo, efetuou-se uma segunda análise a este estudo. Consideraram-se as doentes em terapêutica hormonal que não manifestavam afrontamentos, por apresentarem níveis mais elevados de estrogénios e, consequentemente, um risco aumentado de recorrência. Os resultados mostraram que a recorrência do cancro da mama foi 31% menor em sobreviventes inseridas no grupo de intervenção, efeito esse ainda mais notório em mulheres pós-menopausa (47%). Assim, a diminuição do risco de recorrência foi atribuída à redução dos níveis de estrogénio de uma dieta pobre em gordura e rica em fruta e vegetais.

Uma terceira análise ao estudo WHEL mostrou que as sobreviventes tratadas com tamoxifeno que relataram um consumo mais elevado de crucíferas tiveram menor risco de recorrência da doença.

Uma dieta rica em frutas e vegetais fornece vários compostos (carotenóides, polifenóis e isotiocianatos) que parecem atrasar ou reduzir o risco de recorrência de cancro. Por outro lado, este tipo de dieta tem sido associada a uma diminuição significativa das concentrações sanguíneas de estradiol, mesmo sem que se verifique perda de peso. Também a ingestão de fibra está relacionada com a redução de estrogénio, pois a fibra tem a capacidade de se ligar a este, aumentando a sua excreção nas fezes e, como tal, inibindo a reabsorção intestinal.

As recomendações

É importante que as sobreviventes de cancro da mama alcancem um peso saudável. A combinação de uma alimentação adequada às necessidades juntamente com exercício físico e estratégias comportamentais possibilita a redução da ingestão calórica e um aumento do gasto calórico .

Apesar da evidência limitada em intervenções alimentares que previnam a recorrência do cancro da mama, a American Cancer Society recomenda que os hidratos de carbono contribuam com 45-65% da energia veiculada pela alimentação, 10-35% pelas proteínas (fontes pobres em gordura saturada e restrição em carnes processadas) e 30-35% das gorduras (oriunda do peixe e de frutos secos, por exemplo). Os alimentos muito calóricos, como aqueles ricos em gordura e em açúcar, deverão ser evitados, optando-se pelos vegetais e frutas. Além disso, o consumo de fontes de hidratos de carbono ricas nutricionalmente devem ser preferidas, em detrimento de cereais refinados (ex: pão branco). Quanto a suplementos alimentares, deverão ser opção apenas se for verificada carência nutricional, devendo os nutrientes ser provenientes sempre pelos alimentos.

Referências: Chlebowski R et al.. Survival analyses from the Women’s Intervention Nutrition Study (WINS) evaluating dietary fat reduction and breast cancer outcome. In: ASCO Annual Meeting Proceedings: 2008; 2008: 522; Chlebowski RT et al.. Dietary fat reduction and breast cancer outcome: interim efficacy results from the Women’s Intervention Nutrition Study. J Natl Cancer Inst. 2006;98(24):1767–76; Dieli-Conwright CM et al.. Reducing the risk of breat cancer recurrence: an evaluation of the affects and mechanisms of diet and exercise. Curr Breast Cancer Rep. 2016; 8(3): 139-150; Patterson RE et al.. Physical activity, diet, adiposity and female breast cancer prognosis: a review of the epidemiologic literature. Maturitas. 2010;66(1):5–15; Pierce JP et al.. Influence of a diet very high in vegetables, fruit, and fiber and low in fat on prognosis following treatment for breast cancer: the Women’s Healthy Eating and Living (WHEL) randomized trial. Jama. 2007;298(3):289–98; Rock CL et al.. Nutrition and physical activity guidelines for cancer survivors. CA Cancer J Clin. 2012;62(4):242–74; Wang D, Dubois RN. Eicosanoids and cancer. Nat Rev Cancer. 2010;10(3):181–93. Fontes de imagens: https://www.bancodasaude.com/noticias/calculadora-pode-ajudar-a-prever-risco-de-cancro-da-mama/; http://lifestyle.sapo.pt/saude/noticias-saude/artigos/utilizacao-prolongada-de-medicamento-reduz-recorrencia-de-cancro-da-mama?artigo-completo=sim

Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.