O PSA está ultrapassado? E agora?

O valor do antigénio específico da próstata (PSA, do inglês prostate specific antigen) no contexto do diagnóstico e prognóstico do cancro da próstata é inegável, uma vez que a sua utilização tem revolucionado o diagnóstico e prognóstico deste tipo de cancro ao longo dos últimos anos. No entanto, sabe-se hoje que o PSA possui inúmeras limitações e que é por isso necessário descobrir novos biomarcadores, capazes de oferecer maior sensibilidade e especificidade ao diagnóstico e prognóstico do cancro prostático.

Cancro da próstata: o que sabemos?

O cancro da próstata é um tipo de tumor cujo comportamento é altamente heterogéneo, afetando anualmente um elevado número de homens em todo o mundo. Felizmente, existe atualmente uma enorme disparidade entre a elevada taxa de incidência e a baixa taxa de mortalidade deste tipo de cancro, devendo-se tal facto maioritariamente à prescrição rotineira do teste do PSA. Vale a pena referir, no entanto, que diversos estudos têm revelado que a medição dos níveis de PSA veio permitir a deteção de pequenos tumores, perfeitamente assintomáticos, e que não representariam qualquer ameaça para a vida do homem. Assim, devido ao sobre-diagnóstico e consequente sobre-tratamento, muitos homens têm sido expostos desnecessariamente ao tratamento. Neste contexto, torna-se verdadeiramente importante distinguir entre as neoplasias da próstata potencialmente causadoras de doença significativa e/ou de morte das neoplasias da próstata indolentes.

O PSA oferece baixa sensibilidade e especificidade

O PSA é uma enzima produzida pela glândula prostática que se encontra particularmente elevada na presença do cancro da próstata. De facto, a quantificação da concentração do PSA no sangue é utilizada frequentemente na deteção deste tipo de cancro. Em condições normais, os níveis séricos do PSA são baixos. No entanto, os níveis desta enzima podem aumentar devido a alterações na normal arquitetura prostática, tais como as induzidas pelo cancro da próstata. Vale a pena referir que os níveis desta enzima podem também aumentar em outros contextos clínicos, como na hiperplasia benigna da próstata ou na prostatite, não sendo por isso o PSA um marcador específico do cancro da próstata. Por outro lado, o PSA é também incapaz de oferecer uma distinção entre cancros indolentes e agressivos, fator motivador de inúmeras biópsias desnecessárias.

Apesar das inúmeras desvantagens do PSA, maioritariamente relacionadas com a sua baixa sensibilidade e especificidade, este é ainda o biomarcador para o cancro da próstata rotineiramente utilizado pelos clínicos. No entanto, e tendo em conta as limitações do PSA, são vários os marcadores para o cancro da próstata que se encontram já em utilização clínica ou em desenvolvimento. Em particular, existe uma grande procura de biomarcadores capazes de distinguir entre tumores indolentes e agressivos, capazes de melhor apoiar as decisões terapêuticas.

Devido ao avanço da genómica e da proteómica, o cancro da próstata tem sido largamente estudado ao longo das últimas décadas. O conhecimento deste cancro desencadeou a expansão da investigação científica na área dos biomarcadores, tais como a isoforma 3 do antigénio do cancro da próstata (PCA3, do inglês prostate cancer antigen 3), um marcador já aprovado pela Food and Drug Administration (FDA). Por outro lado, testes como o Oncotype DX, ProMark, ConfirmMDx ou Prolaris encontram-se ainda numa fase pré-clínica, não tendo sido ainda aprovados pela FDA. Espera-se que, em breve, a validação de novos biomarcadores possa ditar um melhor diagnóstico e tratamento do cancro da próstata.

Breve nota bibliográfica sobre o 2.º autor: Inês Marques é licenciada em Bioquímica e Mestre em Biotecnologia Farmacêutica pela Universidade de Coimbra. Atualmente é investigadora na Unidade de Biofísica da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, dedicando o seu trabalho de investigação ao estudo de novas formas de diagnóstico e terapia do cancro da próstata. 

Referências: Saini S. PSA and beyond: alternative prostate cancer biomarkers. Cell Oncol (Dordr). 2016;39(2):97-106.; Filipe D, Martins R. PSA – Valor e limitações no rastreio, diagnóstico e prognóstico do cancro da próstata. 2013.; Romero Otero J, Garcia Gomez B, Campos Juanatey F, Touijer K. Prostate cancer biomarkers: an update. Urol Oncol. 2014;32(3):252-260.

Ana Catarina Mamede, natural de Peniche, é Doutorada em Biomedicina pela Universidade da Beira Interior. É membro da equipa de investigação da Unidade de Biofísica e do Centro de Investigação em Meio Ambiente, Genética e Oncobiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. Autora de vários artigos científicos, livros e apresentações. Os seus atuais interesses de investigação são no domínio da comunicação de ciência, particularmente na área da saúde. Fundadora e CEO da Research Trial (www.research-trial.com), uma agência de Comunicação de Ciência. Usa o novo acordo ortográfico. Ana Catarina Mamede, from Peniche, completed the PhD in Biomedicine at the University of Beira Interior. She is member of the research team of the Biophysics Unit and the Center of Investigation in Environment, Genetics and Oncobiology of the Faculty of Medicine of the University of Coimbra. Author of several scientific articles, books and presentations. Her current research interests are in the field of science communication, particularly in health. Founder and CEO of Research Trial (www.research-trial.com), a Science Communication agency.