Para ser grande, sê inteiro.

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Para ser grande, sê inteiro.

(Ricardo Reis, in “Odes”- Heterónimo de Fernando Pessoa).

Após vários meses, regressamos à missão de, com simplicidade e bom senso, escrever sobre o cancro e sobre como todos gostaríamos de lhe pôr um fim. Mas como em todas as lutas, chegam momentos em que é preciso parar, ou somos parados, por dúvidas, por incapacidades ou porque simplesmente é preciso recuperar forças.

A luta pressupõe que há um inimigo que é preciso combater, mas e se o inimigo formos nós mesmos? Há momentos na vida em que somos desafiados por situações que nos abalam e transtornam a ponto de quase nos derrubarem. O que vejo a acontecer, na maioria das vidas que conheço é o consequente emergir de uma atitude de “vamos à luta”. Imediatamente, nos animamos e vemos nesta atitude um ato de imensa coragem. É certo que a resiliência é um recurso fantástico e aqueles que a têm prosseguem a sua vida, aparentemente, com mais facilidade. Mas, volto atrás e foco-me na expressão: “aparentemente”. Não será muitas vezes, apenas, aparente, a recuperação de situações que consensualmente são reconhecidas como avassaladoras?

Vivemos na época do fast-food e fast life. Tudo tem que prosseguir e de imediato: “The show must go on”. E assim, apressamos tudo, desde o crescimento dos alimentos, aos nascimentos, às recuperações. Vemos pessoas enlutadas e doentes a regressarem rapidamente ao trabalho, pais a apressarem a entrada dos filhos na escola, para tudo temos pressa. Mas os nossos tempos internos nem sempre são aqueles que nos são impostos, inclusive, por nós mesmos numa tentativa de fuga para a frente. Por isso, é urgente parar de vez em quando, sobretudo quando a vida nos desafia com algo que seja demasiado avassalador. Qualquer dor para passar tem que ser devidamente e demoradamente doída. E não se fala aqui de vitimização ou de masoquismo. Fala-se sim de termos a coragem de sentir e olhar para a nossa dor, de ficarmos na “toca” por algum tempo a lamber as feridas, a sentirmo-nos, a pensarmo-nos. Todas as experiências de vida requerem uma digestão interna que nos cabe a nós fazer, naturalmente, com a ajuda que sentirmos necessária. O que não soa natural é passarmos por cima de nós mesmos como se lá não estivéssemos.

Durante estes meses em que não escrevi, porque precisei de reclamar este tempo e espaço para olhar para dentro, fui tomada por muitas dúvidas, inclusivamente, duvidei do sentido de escrever sobre como prevenir o cancro. Saberemos verdadeiramente como prevenir o cancro, ou qualquer outra situação avassaladora que nos surja pondo em causa a nossa sobrevivência? Deveremos viver focados na prevenção do cancro, da SIDA, dos acidentes de viação, das guerras, das violações e de tantas outras catástrofes que nos assolam? Ou deveremos, antes, viver focados em como fazer de cada dia da nossa vida um momento em que damos o melhor de nós no sentido do respeito por nós mesmos e pelos outros. Dir-me-ão que é a mesma coisa, mas sinto que há grande diferença nesta mudança de foco.

As células anómalas do cancro comportam-se como sendo imortais. As células sãs cumprem com a sua vida e aceitam a sua mortalidade dando lugar a outras que nascem. Suponho que as pessoas sãs aceitam que todos iremos morrer um dia, pelo que importa realmente é saber viver cada dia da melhor forma. Não deixando que o nosso medo nos impeça de vivermos inteiros e presentes em cada momento e sabendo parar para repor forças sempre que necessário, justamente, para não nos comportarmos como as células do cancro, com a ilusão de que somos imortais e invencíveis.

Photo credit: Samuel Zeller, Poznan Poland.

Rita Rosado

Sobre Rita Rosado

Rita Rosado licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa (1997). Concluiu o Mestrado em Ciências da Educação – Formação de Adultos em 2007. Trabalha na área de Orientação Profissional e o seu interesse pela problemática da prevenção do cancro aprofundou-se após a experiência que vivenciou enquanto familiar de doentes de cancro.