Café e cancro

Share on Facebook118Share on Google+1Tweet about this on Twitter

Existem vários estudos que relacionam café e cancro. Se, no passado, associavam o seu consumo ao aumento do risco da doença, atualmente, os estudos sugerem que pode ter um efeito protetor em relação a alguns cancros. São várias as hipóteses que justificam a possível redução do risco da doença através do consumo de café.

O café contém uma grande variedade de fitoquímicos, muitos dos quais com propriedades antioxidantes. Embora em pequenos estudos observacionais, o café parece favorecer um estado antioxidantes e reduzir os marcadores de inflamação a curto prazo, diminuindo o risco de doença oncológica.

Outra hipótese assenta na resistência à ação da insulina, a qual favorece o aumento dos níveis da hormona no sangue, promovendo o crescimento de alguns cancros. Ora, estudos em animais e humanos sugerem que, tanto o café normal como o descafeinado, podem diminuir essa resistência, reduzindo, então, o risco de certos cancros.

O American Institute for Cancer Research e o World Cancer Research Fund International procederam a uma análise dos trabalhos publicados e chegaram a algumas conclusões. Segundo o relatório publicado, é provável que o café diminua o risco de cancro do endométrio e do fígado, havendo necessidade de mais estudos. Contudo, no que diz respeito aos cancros do pâncreas e dos rins, as conclusões são claras: o consumo de café está associado a uma redução do risco.

cafe-cancroE quando o cancro já está diagnosticado?

Vários trabalhos com linhas celulares e com animais sugerem que alguns compostos presentes no café podem ajudar no controlo da doença. Assim, por exemplo, o ácido clorogénico presente na bebida tem mostrado uma ação antioxidante e um papel em vários estadios do desenvolvimento da doença oncológica, ajudando a regular o crescimento das células oncológicas, a reduzir a inflamação e a aumentar a morte celular. Todavia, este não é o único exemplo.

O café é uma fonte de lignanos, os quais pertencem a um grupo de substâncias que, além de outros efeitos, têm efeitos contra o cancro, nomeadamente a diminuição do crescimento das células tumorais e a promoção da morte das mesmas.

No caso do cancro colo-retal, estudos in vitro mostraram que é a cafeína a responsável no efeito benéfico do café, pois parece que esta influencia a sinalização celular no sentido de diminuir o crescimento do tumor. Num trabalho publicado no ano passado que incluiu cerca de 1000 doentes com cancro do cólon (estadio III), os autores concluíram que o consumo regular de café não descafeinado pode estar associado com uma redução da recorrência de cancro do cólon e do risco de morte pela doença.

Por outro lado, o kahweol e o cafestol presentes no café, principalmente no não filtrado (Turquia e Escandinávia), parecem atuar por duas vias: estimulam enzimas que tornam os carcinogénios inofensivos e bloqueiam as proteínas que os ativam.

Recomendações para o consumo de café

Os trabalhos realizados com humanos mostram que doses até 400 mg de cafeína por dia são seguras em adultos saudáveis. Esse valor passa para 200 mg, se estivermos a falar de grávidas, lactantes e mulheres que pretendem engravidar. Atendendo a que a cafeína está presente em várias bebidas e alimentos, as recomendações são de até 2 a 3 cafés por dia.

Apesar destas conclusões, algumas pessoas deverão evitar ou limitar o consumo de café, como aquelas com refluxo gastroesofágico e as que apresentam algumas dificuldades em dormir, devendo ter atenção à quantidade e à altura do dia em que ingerem cafeína.

Referências: American Institute for Cancer Research. http://www.aicr.org/foods-that-fight-cancer/coffee.html [acedido a 24/10/2016]. European Food Safety Authority. Scientific opinion on the safety of caffeine. EFSA Journal. 2015;13(5):4102. Food Standards Agency Guidance on Caffeine Consumption During Pregnancy 2008. www.food.gov.uk [acesso a 24/10/2016]. Guercio et al. Coffee intake, recurrence, and mortality in stage III colon cancer: results from CALGB 89803 (Alliance). J Clin Oncol. 2015; 33(31): 3598-607.Higdon JV & Frei B. Coffee and health: a review of recent human research. Crit Rev Food Sci Nutr. 2006; 46(2): 101-23. World Cancer Research Fund / American Institute for Cancer Research, Food, Nutrition, Physical Activity and the Prevention of Cancer: a Global Perspective, 2007: Washington, DC. p. 148-156. Fontes das imagens: https://mic.com/articles/146304/hot-drinks-like-yerba-mate-linked-to-cancer; http://www.health.harvard.edu/colorectal-cancer/harvard-researchers-link-coffee-with-reduced-colon-cancer-recurrence
Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.