Será o glifosato potencialmente cancerígeno?

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Há atualmente uma enorme controvérsia em torno do herbicida glifosato e sobre os seus efeitos na saúde. Será o glifosato potencialmente cancerígeno?

A Organização Mundial de Saúde (OMS), através da Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro (IARC), classificou o glifosato como “provavelmente cancerígeno” para os humanos.

O alerta sobre os perigos do herbicida soou a mais de mil de quilómetros de Portugal, em França, Lyon, tendo desencadeado uma reação imediata contraditória por parte dos grupos industriais. Em março de 2015, Robb Fraley, diretor de tecnologia da empresa Monsanto, em St. Louis- Missouri, nos Estados Unidos, reagiu contra a avaliação, expressando o seu total desacordo.

Já em 2016 a OMS através de um comentário publicado pelo Painel de Peritos em Resíduos de Pesticidas nos Alimentos e Ambiente, fez uma revisão do reconhecimento efetuado em 2015, indicando que é improvável que o uso do glifosato, através da dieta, seja cancerígeno para os humanos. Isto porque, segundo a OMS, tudo depende da quantidade.

O glifosato pode entrar no organismo humano através da ingestão de água e alimentos ou da inalação. O herbicida, produzido há mais de 20 anos pela multinacional Monsanto, é o mais utilizado na agricultura mundial, em produtos como soja, trigo, arroz, milho, uva, banana, cacau e café.

É na agricultura que o glifosato é mais usado. Hoje em dia, só em Portugal, há mais de 20 marcas que o comercializam. É um herbicida total, não seletivo, o que significa que mata qualquer tipo de planta.

Mas que evidências existem sobre a ligação entre o glifosato e o cancro?

O relatório realizado pelo IARC indicou que há uma evidência limitada para se poder afirmar que existe uma ligação entre a utilização do glifosato e o cancro. No entanto, vários estudos mostraram que as pessoas que trabalham com o herbicida parecem ter um risco aumentado de desenvolver um tipo específico de cancro, o linfoma não Hodgkin. Neste relatório é ainda realçado que um estudo americano, o Agricultural Health Study, não encontrou nenhuma ligação entre o glifosato e o linfoma não Hodgkin. Nesse estudo foram seguidos milhares de agricultores, para avaliar se todos eles tinham ou não um risco aumentado de desenvolver esse tipo de cancro.

Mas outras evidências, incluindo a partir de estudos com animais, levaram o IARC a classificar o glifosato como sendo “provavelmente cancerígeno”. O glifosato tem sido associado a tumores em ratinhos e ratos. Existe ainda aquilo que é denominado como ‘evidência mecanicista’, tal como dano no ADN de células humanas devido à exposição ao glifosato.

Por outro lado, no último comunicado sobre este assunto, os peritos da OMS referiram que a maioria dos testes científicos indicam que a administração de glifosato e de produtos derivados em doses de até 2.000 miligramas por quilo, por via oral, que é a maior exposição à substância em uma dieta, não está associada a efeitos genotóxicos, na maioria dos estudos conduzidos em mamíferos.

Os maiores problemas com o glifosato estão nos países americanos, onde são cultivados alimentos geneticamente modificados (OGM), sendo que 80% desses alimentos, os chamados OGM são resistentes ao glifosato, o que quer dizer que uma plantação transgénica pode ser pulverizada com herbicidas sem que a cultura morra, só as ervas. Isto traduz-se em altas concentrações de herbicidas nos cereais.

Estes transgénicos são por enquanto proibidos na Europa. Mas há um transgénico que pode ser semeado: a variedade de milho MON 181. E Portugal é um dos quatro países que cultiva OGM na Europa.

Nos supermercados, os produtos OGM estão sobretudo nas prateleiras de óleos alimentares. Mas várias toneladas de milho e soja OGM entram todos os dias em Portugal. Vêm de barco e vão para as fábricas de rações. Mais de 90% da alimentação animal é feita de transgénicos resistentes ao glifosato.

Por agora, após um impasse sobre a continuação da utilização deste herbicida, em junho deste ano, a Comissão Europeia decidiu prolongar até ao final de 2017 a licença de uso do glifosato. A decisão foi baseada na avaliação científica realizada pelos órgãos competentes da União Europeia, que concluiu que o glifosato não constitui um risco, quer para a saúde humana ou para o ambiente.

Fontes da informação: Cressey, D. (Março de 2015). Widely Used Herbicide Linked to Cancer. Disponível em http://www.scientificamerican.com/article/widely-used-herbicide-linked-to-cancer/; Glyphosate Facts. (2016). Disponível em http://www.glyphosate.eu/; Jorge, M., Jorge, P., Salselas, M., & Caldeirinha, J. (Maio de 2016). Portugueses contaminados com herbicida potencialmente cancerígeno. Disponível em http://www.rtp.pt/noticias/pais/portugueses-contaminados-com-herbicida-potencialmente-cancerigeno_v915067; Jr, O. P. de A., Santos, T. C. R. dos, & Ribeiro, N. M. B. e M. L. (2002). Glifosato: Propriedades, Toxicidade, Usos e Legislação. Quimica Nova, 25(4), 589–593; Louro, N. (2016). OMS diz que glifosato afinal não é cancerígeno nos humanos. Disponível em http://www.sabado.pt/ciencia___saude/detalhe/oms_diz_que_glifosato_afinal_nao_e_cancerigeno_nos_humanos.html; MacBean, C. (Ed.). (2013). The Pesticide Manual: A World Compendium (16 edition). Alton, Hampshire: CABI; Tomás, C. (Junho de 2016). Comissão Europeia autoriza glifosato até final de 2017. Disponível em http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-06-29-Comissao-Europeia-autoriza-glifosato-ate-final-de-2017; Créditos da imagem: http://yogui.co/wp-content/uploads/2015/03/TRANSGENICOS-2.jpg 

 

Cristina Ferrão

Sobre Cristina Ferrão

Cristina Ferrão é licenciada em Nutrição Humana e Qualidade Alimentar na Escola Superior Agrária de Castelo Branco. Acredita na divulgação do conhecimento com bases científicas, como meio de promover a saúde e ajudar a população a adotar um estilo de vida saudável.