Hipóxia: modeladora tumoral?

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O cancro caracteriza-se pela divisão celular descontrolada. Sabe-se que, durante o processo de carcinogénese, as células tumorais tornam-se incapazes de respeitar os limites do tecido envolvente, multiplicando-se, migrando e dando origem a metástases à distância.

Para que tal ocorra, as células cancerígenas precisam de recrutar uma elevada concentração de nutrientes e oxigénio, capazes de suprimir as suas exigentes necessidades energéticas. Nesse sentido, e aquando da complexa multiplicação celular cancerígena e do consequente crescimento tumoral, as células localizadas no interior da massa tumoral ficam menos expostas à irrigação sanguínea e, consequentemente, ao oxigénio.

As células tumorais adaptam-se à baixa pressão de oxigénio

A hipóxia, vulgarmente detetada nos tumores sólidos, resulta do fornecimento inadequado de oxigénio às células tumorais mais afastadas dos vasos sanguíneos. Para sobreviver, as células tumorais adaptam-se à baixa pressão de oxigénio e induzem a formação de novos vasos sanguíneos, num intrincado processo denominado por angiogénese. A angiogénese pode permitir a disseminação de células cancerígenas, resultando assim na formação de metástases. Para além da promoção da angiogénese, a adaptação tumoral à hipóxia inclui instabilidade genética, glicólise aeróbica, perda do controle sobre o ciclo celular e perda dos normais sinais de apoptose (morte celular).

Os tumores hipóxicos apresentam resistência à terapia

Sabe-se, por tudo isto, que os tumores hipóxicos apresentam um maior risco de progressão, recorrência e morte, sendo por tudo isto tipicamente considerados mais agressivos. Estes tumores com baixa oxigenação apresentam elevada resistência à quimioterapia e à radioterapia.

A possibilidade de identificar e quantificar a pressão de oxigénio tumoral tem sido alvo de investigação, uma vez que a caracterização do ambiente hipóxico numa fase pré-terapêutica pode determinar a utilização de substâncias radiosensibilizantes, o aumento da dose de radiação ou a escolha de outras abordagens terapêuticas mais adequadas ao perfil tumoral em estudo.

A Medicina Nuclear tem sido fundamental no que à identificação e quantificação da hipóxia diz respeito, dispondo atualmente de alternativas a métodos invasivos com o mesmo fim. Através da utilização de vários radiofármacos, como o 18F-FMISO, a Medicina Nuclear tem sido capaz de apresentar promissores agentes imagiológicos no que à deteção e caracterização da hipóxia tumoral diz respeito.

Referências: Abrantes A, Tavares L, Pires S, Casalta-Lopes J, Mendes C, Simões M, et al. Metabolic effects of hypoxia in colorectal cancer by 13C NMR isotopomer analysis. Biomed Res Int. 2014;759791.; Abrantes A, Serra M, Gonçalves A, Rio J, Oliveiros B, Laranjo M, et al. Hypoxia-induced redox alterations and their correlation with 99mTc-MIBI and 99mTc-HL-91 uptake in colon cancer cells. Nucl Med Biol. Elsevier Inc.; 2010;37(2):125–32.; Mamede A, Abrantes A, Pedrosa L, Casalta-Lopes J, Pires A, Teixo R, et al. Beyond the limits of oxygen: effects of hypoxia in a hormone-independent prostate cancer cell line. ISRN Oncol. 2013;2013:918207.; Xu R-H, Pelicano H, Zhou Y, Carew J, Feng L, Bhalla K, et al. Inhibition of glycolysis in cancer cells: a novel strategy to overcome drug resistance associated with mitochondrial respiratory defect and hypoxia. Cancer Res. 2005;65(2):613–21.

Ana Catarina Mamede

Sobre Ana Catarina Mamede

Ana Catarina Mamede é licenciada e mestre em Ciências Biomédicas pela Universidade da Beira Interior. Doutorada em Biomedicina. Os seus projetos de investigação estão relacionados com a descoberta de novas opções terapêuticas para o cancro do fígado.