O fim do consumo de açúcar

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Atualmente existe uma enorme controvérsia sobre o consumo de açúcar e há uma questão que se impõe: está a chegar o fim do consumo de açúcar? Ou é o fim do consumo excessivo que se impõe?

A conceituada revista Nature publicou um artigo com um título bastante polémico, “A verdade tóxica sobre o açúcar”, onde defende que o consumo de açúcar poderá estar associado ao aumento das doenças crónicas mais frequentes. Esta afirmação proveniente de três investigadores americanos da Universidade da Califórnia, é fundamentada pelo pressuposto de que o consumo excessivo de açúcar contribui para o aparecimento de doenças como a obesidade, alguns tipos de cancro, problemas no coração e no fígado, o que é motivo suficiente para haver um maior controlo sobre o consumo do açúcar e uma legislação mais rígida neste sentido.

Este artigo foi alvo de uma enorme controvérsia e despoletou muitos outros artigos e revisões científicas sobre o assunto que contradizem a afirmação exposta.

Mas o consumo de açúcar é mesmo tóxico para a nossa saúde?

Os investigadores do estudo polémico afirmaram que o consumo de açúcar está associado a um aumento de doenças crónicas não transmissíveis e que “a frutose exerce efeitos tóxicos no fígado semelhantes aos do álcool”. Eles defendem que o aumento das doenças cardíacas, da diabetes mellitus tipo 2 e do cancro, relacionam-se com a dieta ocidental, caracterizada por alimentos de baixo custo e altamente transformados.

Afirmaram também que a “a obesidade não é a causa (das doenças mencionadas), mas sim um sinal de disfunção metabólica” e que o consumo excessivo de açúcar “origina todos os fatores de risco associados à síndrome metabólica”, incluindo a hipertensão arterial, os triglicerídeos elevados, a resistência à insulina, diabetes e no envelhecimento. Os investigadores concluem assim, que o açúcar é um veneno e que a sua venda deveria ser controlada tal como o tabaco e o álcool, defendendo que a restrição poderia ser mais efetiva do que educar as crianças para hábitos de vida saudáveis.

Por outro lado, os críticos do artigo, publicado na revista Nature, sublinham que este não pode ser considerado um ensaio científico, tratando-se de uma nota de opinião corroborada pelos três investigadores da Universidade da Califórnia. Apesar de ao longo do artigo ser efetuada referência a alguns ensaios científicos para corroborar as afirmações, estas dependem sobretudo de ensaios realizados por um dos investigadores e não refletem uma revisão científica do estado atual dos factos.

De acordo com a evidência científica mais recente não existem provas suficientes para apoiar uma ligação entre a ingestão de açúcar total e a obesidade, os níveis de colesterol no sangue, a síndrome metabólica, as doenças cardíacas ou o cancro. Existem, contudo, algumas provas que sugerem que as bebidas açucaradas como os refrigerantes podem aumentar o risco de obesidade.

A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) concluiu, numa revisão aprofundada, que as provas que relacionam a ingestão elevada de açúcares, em comparação com a ingestão elevada de amido, com o aumento de peso, mostram que a ingestão elevada de açúcares, sob a forma de bebidas açucaradas poderá contribuir para o aumento de peso.

A EFSA adiantou ainda que há dados limitados, principalmente de curto prazo, sobre os efeitos da ingestão elevada de açúcares na reação da glicose à insulina.

O açúcar mais referido nesse estudo é a frutose, um açúcar naturalmente existente na fruta. Embora existam provas de que a ingestão elevada de frutose pode afetar negativamente o metabolismo humano é difícil chegar a uma conclusão sobre o efeito da frutose contida na sacarose e outros adoçantes na saúde.

As provas científicas atuais não corroboram as afirmações dramáticas sobre a associação entre o açúcar e a saúde.

O açúcar é uma fonte de energia presente na nossa dieta e não é “tóxico” desde que consumido nas quantidades recomendadas. A ingestão excessiva de qualquer nutriente como as gorduras, as proteínas e os hidratos de carbono, ao longo do tempo conduzirá, eventualmente, ao ganho de peso, o que pode ter um impacto negativo na saúde, como é observável no caso da obesidade e a sua ligação com as doenças crónicas mais frequentes.

O açúcar está naturalmente presente em muitos alimentos naturais, como na fruta e nos cereais. Os guias alimentares, como a Roda dos Alimentos, sugerem que os alimentos e as bebidas com um elevado teor de açúcar e/ou gordura devem ser consumidos com moderação, mas não é necessário excluí-los por completo de uma dieta saudável e equilibrada.

Mais importante que proibições e penalizações, é um investimento na educação para uma alimentação saudável. A fórmula para um estilo de vida saudável assenta numa dieta adequada, combinada com a prática regular de exercício físico.

Referências: European Food Information Council. (2012). O açúcar é assim tão prejudicial para a sua saúde? European Food Information Council; Lustig, R. H., Schmidt, L. A., & Brindis, C. D. (2012). The toxic truth about sugar. Nature, 482(7383), 27–29. http://doi.org/10.1038/482027a; Créditos da imagem: http://cdn.bancodasaude.com/press/1435700588acuccc.jpg 
Cristina Ferrão

Sobre Cristina Ferrão

Cristina Ferrão é licenciada em Nutrição Humana e Qualidade Alimentar na Escola Superior Agrária de Castelo Branco. Acredita na divulgação do conhecimento com bases científicas, como meio de promover a saúde e ajudar a população a adotar um estilo de vida saudável.