Importância do selénio no tratamento do cancro

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selenio-no-cancroO selénio é um oligoelemento que faz parte de uma série de proteínas designadas por selenioproteínas. Estas podem ter funções antinflamatórias, antioxidantes e de participação na produção de hormonas da tiróide na forma ativa e na produção e reparação do ADN. Além disso, vários têm sido os estudos acerca da importância do selénio no tratamento do cancro.

Este oligoelemento existe na maioria dos alimentos, embora existam em maior quantidade nos frutos secos, no peixe, marisco, vísceras e carnes. Os vegetais, de uma forma geral, também contêm selénio mas a sua quantidade varia em função do tipo de solo a partir do qual se desenvolvem.

O Scientific Committee on Food recomenda que não se ultrapasse o consumo de selénio além dos 300 µg/dia nos adultos e 60 µg/dia nas crianças de 1 aos 3 anos de idade, para que não haja riscos para a saúde.

Exceder estes valores pode levar a queda de cabelo e unhas, bem como a lesões da pele. Doses acima dos 900 µg/dia, a longo prazo, podem causar alterações neurológicas (entorpecimento, convulsões ou paralisia). No entanto, é importante referir que o consumo excessivo de selénio oriundo da alimentação é muito raro, sendo os casos de ingestão de doses excessivas referentes à toma acidental ou não de uma grande quantidade de suplementos deste oligoelemento. Por outro lado, o consumo abaixo dos níveis aconselhados pode prejudicar a reparação do ADN, diminuir as respostas imunitárias e anti-inflamatórias e diminuir a proteção contra doenças crónicas, como o cancro e as doenças cardiovasculares.

E quando a doença oncológica já está instalada?

Foram realizados alguns estudos com o objetivo de perceber se o selénio pode reduzir a toxicidade, ou seja, o aparecimento de efeitos secundários da quimioterapia e da radioterapia sem prejudicar o objetivo do tratamento oncológico.

Através desses trabalhos, verificou-se que o selénio reduziu significantemente a hematotoxicidade e a nefrotoxicidade do fármaco de quimioterapia cisplatina usado em diversos tumores sólidos. Além disso, em mulheres com cancro do ovário tratadas com cisplatina e ciclofosfamida, o selénio diminuiu a hematoxicidade, bem como a alopécia. Este oligoelemento também foi estudado em doente com linfomas não-Hodgkin tratados com ciclofosfamida, doxorrubicina, vincristina e prednisona, com resultados positivos. Verificou-se uma redução da toxicidade sanguínea, uma diminuição da taxa de reaparecimento da doença e um aumento da sobrevivência. Num estudo publicado recentemente, os autores concluíram que, a um nível celular, o selénio e a cisplatina interagem na mesma via de atuação e que, combinados, podem resultar num efeito anticarcinogénico significativo.

No que diz respeito à radioterapia, houve redução significativa da dificuldade em engolir (a disfagia) em doentes com tumores da cabeça e pescoço que tomaram selénio durante o tratamento. Por outro lado, a toma deste oligoelemento concomitantemente com a radioterapia por mulheres com cancro cervical e do útero resultou numa redução marcada da diarreia, tendo também aumentado a sobrevivência a 10 anos. Neste trabalho, o selénio foi administrado sob a forma de selenito de sódio e os autores concluíram que a sua utilização é segura e não reduz os efeitos desejáveis da radioterapia.

A segurança e a eficácia da administração intravenosa de selenito de sódio em doentes oncológicos também foi testada em quimioterapia, sendo os resultados também favoráveis. Parece que este sal atua de diferentes formas contra o cancro: tem, por si só, um efeito anti-tumor, diminui a resistência à quimioterapia e aumenta o efeito da mesma.

As recomendações relativas ao selénio no que à prática clínica diz respeito, assentam na importância de que as deficiências em selénio devem ser corrigidas, dado que este oligoelemento parece diminuir a toxicidade da quimio e da radioterapia sem prejudicar os efeitos anticancerígenos do(s) tratamento(s).

Referências: Scientific Committee on Food (2000) Opinion of the Scientific Committee on Food on the Tolerable Upper Intake Level of Selenium. Disponível em http://ec.europa.eu/food/fs/sc/scf/out80g_en.pdf; Hu, Y.J. et al.. The protective role of selenium on the toxicity of cisplatinum-contained chemotherapy regimen in cancer patients. Biol. Trace Elem. Res. 1997; 56: 331–341.; Sieja, K. & Talerczyk, M. Selenium as an element in the treatment of ovarian cancer in women receiving chemotherapy. Gynecol. Oncol. 2004; 93: 320–327.; Asfour, I.A. et al.. Effect of high-dose sodium selenite therapy on polymorphonuclear leukocyte apoptosis in non-Hodgkin’s lymphoma patients. Biol. Trace Elem. Res. 2006; 110: 19–32.; Asfour, I.A. et al.. The impact of high-dose sodium selenite therapy on Bcl-2 expression in adult non-Hodgkin’s lymphoma patients: Correlation with response and survival. Biol. Trace Elem. Res. 2007; 120: 1–10.; Büntzel, J. et al.. Limited effects of selenium substitution in the prevention of radiation-associated toxicities. Results of a randomized study in head and neck cancer patients. Anticancer Res. 2010; 30: 1829–1832.; Muecke, R. et al.. Impact of treatment planning target volumen (PTV) size on radiation induced diarrhea following selenium supplementation in gynecologic radiation oncology—A subgroup analysis of a multicenter, phase III trial. Radiat. Oncol. 2013; 8: 72.; Brodin, O. et al.. Pharmacokinetics and toxicity of sodium selenite in the treatment of patients with carcinoma in a phase I clinical trial: The SECAR Study. Nutrients 2015; 7: 4978–4994.; Sakall Ç et al.. Selenium potentiates the anticancer effect of cisplatin against oxidative stress and calcium ion signaling-induced intracelular toxicity in MCF-7 breast cancer cells: involvement of the TRPV1 channel. J Recept Signal Transduct Res. 2016; 8: 1-10.; Rayman, M.P. Selenium and human health. Lancet 2012; 379: 1256–1268. Fontes de imagens: http://anti-agingmatters.com/reduce-your-risk-of-getting-cancer-with-this-supplement/ ; http://hospitalchama.com.br/unacon-quimioterapia-e-radioterapia/

 

Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.