Qual é a relação entre leite de vaca, glúten e autismo?

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on Twitter

O autismo é uma das alterações de desenvolvimento mais graves na infância e tem etiologia desconhecida.

Segundo a classificação das doenças mentais e de comportamento pela Organização Mundial de Saúde, autismo é uma alteração do desenvolvimento da criança, que permanece ao longo da sua vida, definido de acordo com as características comportamentais, que resulta da deficiência na comunicação social, interacção social reciproca, comportamentos repetitivos e restritivos e pensamento imaginário.

Algumas das intervenções psico educacionais foram consideradas produtivas, no entanto não têm um fundamento científico.

Hipótese para explicar os sintomas do autismo

Uma das hipóteses, colocada pelas neurociências primeiro por Panksepp J. e mais tarde por Reichelt e Knivsberg, para explicar os sintomas do autista, é a teoria do excesso de peptídeos opióides. Esta hipótese defende que quantidades excessivas de opióides endógenos, provocadas pelas proteínas da dieta contribuem para a fisiopatologia do autismo. Em tentativas frustradas dos pais no sentido de encontrar um tratamento, muitos adotaram dietas para os seus filhos isentas de caseína e de glúten.

De acordo com a hipótese de Reichelt e os seus colaboradores, os péptidos derivados da caseína e do glúten têm um papel etiológico no desenvolvimento da doença. Amostras de urina de 24 horas de crianças autistas revelaram um aumento de péptidos de excreção de baixo peso molecular e um aumento dos níveis de opióides no fluido cérebroespinal.

A equipa de Reichelt concluíu que a caseína tem uma estrutura química semelhante á do glúten e por isso, a possibilidade de hipersensibilidade a um deles aumenta a probabilidade de hipersensibilidade a ambos.

As proteínas do leite (caseína) e do trigo (glúten) foram apontadas como de digestão incompleta por deficiência enzimática que posteriormente deu origem á identificação na urina de pequenos péptidos neuroactivos como a β-casomorfina (Tyr-Pro-Fen-Pro-Gli-Pro-Ile) derivada da caseína e a gliadinomorfina (Tyr-Pro-Gln-Pro-Gln-Pro-Phe) derivada do glúten.

No entanto, numa revisão mais recente de literatura feita pela Cochrane Collaboration publicada na The Cochrane Library (uma revista de alto nível em evidência científica), com objectivo de determinar a eficácia de dietas isentas de glúten e/ou caseína na melhoria do relacionamento cognitivo e social de indivíduos com autismo, vem concluir que a evidência da eficácia deste tipo de dietas era muito baixa e pouco clara, sendo necessário mais estudos, com uma amostra de casos aleatória, homogénea e em maior número.

Referências: 1. The ICD-10 Classification of Mental and Behavioral Disorders – Diagnostic Criteria for Research. World Health Organization. [Online] 1993. 2. J., Panksepp. Trends Neuroscience. 1979, pp. 2: 174-177.3. Reichelt, WH, et al., et al. Urinary peptide levels and patterns in autistic children, from seven countries, and the effect of dietary intervention after four years. Developmental Brain Dysfunction. 1997, pp. 10: 44-55.4. Millward, C., Ferriter, M. e Calver, S. Gluten – and casein-free diets for autistic spetrum disdorder. Cochrane Database Syst Ver. 2004.5. Kurek, M., et al., et al. A naturally occurring opioid peptide from cow’s milk, beta-casomorphine-7, is a direct histamine releaser in man. Int Arch Allergy Immunol. 1992, pp. 115-120.6. Cass, H., Gringras, P. e March, J. Absence of urinary opioid peptides in children with autism. [ed.] 93(9). Arch Dis Child. Sep de 2008, pp. 745-50. 7. Millward C. , Ferriter M. , Calver S. J. , Connell-Jone G. Gluten- and casein-free diets for autistic spectrum disorder (Review). The Cochrane Collaboration, The Cochrane Library 2009, Issue 1.; Créditos da imagem:Daniella Birtley for metro em http://metro.co.uk/2016/04/02/violet-fenn-8-things-that-are-just-too-much-for-those-with-sensory-issues-5777826/

Marisa Figueiredo

Sobre Marisa Figueiredo

Marisa Figueiredo é nutricionista e mestre em Nutrição Clínica, pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz. É doutoranda na Faculdade de Medicina de Lisboa no curso de Doenças Metabólicas e de Comportamento Alimentar. Dedica o seu trabalho à nutrição clínica, no adulto e na criança, com particular interesse pela alimentação e saúde infantil. A prevenção começa in útero.