Consumo de toranja na quimioterapia

Toranja e quimioterapiaO consumo de toranja tem sido associado a várias atividades potencialmente benéficas para a saúde, incluindo a proteção contra danos do ADN. No entanto, atualmente, sabe-se que a toranja e outros frutos cítricos podem interagir com mais de 85 medicamentos, entre os quais estão aqueles usados durante a quimioterapia.

Esta interação pode ocorrer aumentando a concentração sanguínea dos fármacos (por prejuízo do seu metabolismo) ou diminuindo a sua concentração (por inibição dos seus transportadores no sangue). Estas interações podem resultar em efeitos adversos graves, como por exemplo, dificuldade respiratória, hemorragias gastrintestinais ou afetando os rins, dependendo da suscetibilidade do doente e da forma de consumo do fruto.

As ações dos medicamentos são determinadas por diversos mecanismos, os quais dependem de aceleradores das reações químicas (enzimas). Os mecanismos que envolvem enzimas da família do citocromo P450 são os mais importantes, estando o citocromo P450 3A4 envolvido no metabolismo de cerca de metade de todos os medicamentos. Esta enzima está localizada nas células do intestino e do fígado, pelo que os fármacos orais podem ser metabolizados antes de atingir a circulação e a quantidade absorvida de forma inalterada ser atenuada. Por esta razão, com a ingestão de toranja, pode ocorrer um aumento elevado da concentração no sangue, aumentando o risco de dose excessiva, já que o fruto diminui a atividade do citocromo P450 3A4, principalmente no intestino delgado.

Os químicos presentes na toranja envolvidos nesta interação são os furanocoumarinos, os quais inativam de forma irreversível o citocromo P450 3A4.

No que diz respeito a fármacos administrados por via intravenosa, o mesmo já não acontece. Uma vez que os furanocoumarinos existem naturalmente na toranja, todas as formas de consumo do fruto (sumo, congelado e inteiro) têm a capacidade de reduzir a atividade do enzima, podendo uma única toranja ou 200ml de sumo da mesma, serem suficientes para causar efeitos adversos relevantes. No entanto, esta ação estende-se a outros citrinos. A laranja-de-sevilha (usada frequentemente em marmeladas), as limas e os pomelos são outros frutos que, além da toranja, podem interagir desta forma. Variedades de laranja doce, como as navel e as valencianas, não contêm os furanocoumarinos, pelo que não originam esta interação.

A interação entre medicamentos e a toranja é específica de cada fármaco e não a uma classe de medicamentos. Tendo em consideração os fármacos citotóxicos usados em quimioterapia, aqueles que estão documentados como interagir com o fruto são: dasatinib (leucemia), erlotinib (pulmão), nilotinib (leucemia), crizotinib (pulmão), ciclofosfamida (tumores sólidos, leucemias, linfomas), imatinib (leucemia), lapatinib (mama), pazopanib (sarcoma dos tecidos moles), sorafenib (fígado), sunitinib (rim, estroma gastrintestinal), vandetanib (tiróide) e venurafenib (melanoma).

Referências: Bailey DG, Dresser G, Arnold JMO.  Grapefruit–medication interactions: Forbidden fruit or avoidable consequences? CMAJ. 2013; 185(4): 309–316. Yin OQ, Gallagher N, Li A, Zhou W, Harrel R, Schran H. Effect of grapefruit juice on the pharmacokinetics of nilotinib in healthy participants. J Clin Pharmacol. 2010;50(2):188-94. Fontes de imagens: http://www.newschoolbeer.com/2015/08/oregon-fruit-products-introduces-grapefruit-antiseptic-puree-for-brewers.html; http://350sav.fotomaps.ru/grapefruit-medication.php

 

 

Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas nº0204N, mestre em  nutrição  clínica  pela  Universidade  do  Porto  e  doutoranda  da  Faculdade  de  Medicina  da Universidade de Lisboa. Iniciou a sua atividade profissional em 2001 e, atualmente, a (...)