Quando não sei dizer o que sinto

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“O que sentes? Não sei explicar.” Estas palavras dizem-lhe alguma coisa? Com certeza que sim.

Todos nós, eventualmente, já teremos passado por momentos na vida em que fomos tomados por emoções de tal modo avassaladoras que nem conseguimos descrever por palavras o que sentimos. Contudo, para algumas pessoas esta dificuldade em descrever por palavras as suas emoções é de tal modo presente que se pode considerar uma verdadeira dificuldade descrita por Jonhn Nemiah e Peter Sifneos, nos anos 70, com o termo de alexitimia.

Estes dois investigadores americanos, realizaram, nessa época, um estudo envolvendo pacientes padecendo de doença psicossomática e concluíram que um número considerável destes pacientes demonstrava esta dificuldade. Sifnios usou, então a palavra alexitimia, de origem grega, para descrever esta falta de palavras para as emoções.

A doença psicossomática é comummente considerada como uma doença com expressão orgânica mas que terá tido eventuais causas psíquicas. São disso exemplo, algumas perturbações do aparelho digestivo, tais como a gastrite, algumas manifestações alérgicas ao nível da pele, tais como a urticária ou o eczema, ao nível do sistema nervoso, tais como a enxaqueca, entre outras. Nestes casos é frequente a dificuldade em chegar a um diagnóstico preciso e por vezes as terapêuticas recomendadas nem sempre se mostram eficazes.

Mas até que ponto podemos fazer rigorosamente uma separação entre as doenças que têm uma causa estritamente orgânica e as que têm uma causa psíquica?
Na verdade corpo e mente são parte de um todo e onde há padecer físico existe, também, com frequência, padecer psicológico e vice-versa.

A psicossomática assume-se hoje como uma área do saber científico que tenta aprofundar todas estas questões na tentativa de iluminar o nosso conhecimento sobre a saúde e a doença em geral, particularmente, no que se refere aos aspectos psicológicos do adoecer somático.

Logo o conceito de alexitimia reveste-se de elevada importância já que inúmeros estudos têm revelado a presença desta dificuldade em expressar as emoções em variadíssimas doenças, incluindo em doentes com cancro. É disso exemplo o estudo realizado por Ednéia Cerchiari com doentes com cancro de mama. Neste estudo, Cerchiari demonstra a existência de elevados níveis de alexitimia nas referidas doentes quando comparadas com doentes sem sintomas de doença psicossomática. Claro está que tal não permite afirmar que exista uma causa psicológica para o surgimento do cancro da mama mas chama, sem dúvida, a atenção para a presença de uma dificuldade fundamental, de carácter emocional, nestes doentes, a qual merecerá eventualmente ser tida em consideração no que diz respeito à prevenção e ao tratamento desta e de outras doenças.

É comum no meio da psicologia e da psiquiatria falarmos de somatização do sofrimento psíquico em pacientes com dificuldade em elaborar mentalmente e em expressar as suas emoções e os seus conflitos internos e, efetivamente, o corpo exprime com bastante mais frequência do que seria de supor aquilo que não está “lido” do ponto de vista psíquico. Logo, na prevenção do adoecer físico e psíquico é fundamental ter em conta o modo como elaboramos mentalmente os nossos conflitos internos e o nosso sofrimento psíquico e nos questionarmos sobre o quão importante será para a nossa saúde tomarmos consciência do que sentimos em cada momento da nossa vida e até sermos capazes de nomear e verbalizar essas emoções.

Referências: CERCHIARI, Ednéia Albino Nunes. Psicossomática um estudo histórico e epistemológico. Psicologia: ciência e profissão, 2000, 20.4: 64-79.; Matos, António Coimbra de (2003). Mais amor, menos doença. Climepsi Editores

 

Rita Rosado

Sobre Rita Rosado

Rita Rosado licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa (1997). Concluiu o Mestrado em Ciências da Educação – Formação de Adultos em 2007. Trabalha na área de Orientação Profissional e o seu interesse pela problemática da prevenção do cancro aprofundou-se após a experiência que vivenciou enquanto familiar de doentes de cancro.