Vacina contra infecções do HPV: quais as recomendações actuais?

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O Vírus do Papiloma Humano (HPV) é uma das principais causas das infecções sexualmente transmissíveis e um importante factor de risco para o desenvolvimento de cancro do colo do útero, estando também associado a cancros da vulva, vagina, pénis, recto e boca.

São conhecidas mais de 100 diferentes variantes deste vírus, embora apenas 15 sejam consideradas como alto risco para o cancro do colo do útero. Destes 15, as variantes 16 e 18 são responsáveis por 70% de todos os cancros do colo do útero. Quase todas as mulheres sexualmente activas irão contactar com alguma variante deste vírus sem, contudo, desenvolver cancro.

Numa tentativa de prevenir o cancro do colo do útero, diversos países implementaram programas de rastreio através da citologia cervical, o Papanicolau. Trata-se contudo, de uma prevenção secundária, no sentido em que se tenta detectar lesões ou alterações nos tecidos que sejam sugestivos para uma investigação mais profunda.

Numa prevenção primária, o principal objectivo é que o cancro e a infecção do HPV não ocorram. Aqui, a indústria farmacêutica providenciou uma importante arma: a vacina contra o HPV, erroneamente chamada vacina contra o cancro do colo do útero. É verdade que ajuda a prevenir esse cancro, mas não é uma vacina específica dele, pois também ajuda a prevenir cancros associados à infecção pelo HPV noutros locais.

Actualmente encontram-se disponíveis duas vacinas em Portugal: Cervarix (também chamada vacina bivalente, confere protecção contra as variantes 16 e 18) e a Gardasil (também chamada tetravalente, confere protecção contra as variantes 16, 18, 6 e 11). Ambas são eficazes e conferem protecção para as duas principais variantes do HPV que provocam cancro (16 e 18), embora a Gardasil também confere protecção para dois subtipos responsáveis por verrugas na região genital e anal. É importante referir que as vacinas só conferem protecção para aquelas variantes específicas do HPV e não servem de tratamento a uma infecção que já esteja a ocorrer.

A vacina contra o HPV faz parte do Plano Nacional de Vacinação português desde 2008 sendo, por isso, gratuita para a população-alvo. Actualmente, a Direcção-Geral da Saúde recomenda a vacinação a todas as raparigas entre os 10 e 13 anos, embora a vacinação possa ser iniciada até aos 18 anos e completada até aos 25 anos. Inicialmente o fabricante da vacina Gardasil recomendava 3 doses, mas em 2014 reviu as recomendações e reduziu para duas doses, com um intervalo mínimo de 6 meses entre cada dose.

Vários países industrializados incluíram a vacinação no seu esquema regular de vacinação. No Reino Unido a vacina está recomendada a todas as raparigas entre os 12 e 13 anos de idade e faz parte do plano de vacinas gratuitas do sistema de saúde nacional (NHS).

Nos Estados Unidos da América, brevemente entrará no mercado uma nova vacina (Gardasil 9) que confere protecção contra as 4 variantes já incluídas na Gardasil, bem como confere protecção para 5 outros tipos de HPV associados a cancro.

Em termos de recomendações, não há consensos. A American Cancer Society recomenda a vacinação a todas as raparigas entre os 11 e os 12 anos e está a analisar se irá recomendar a vacina para rapazes. O Centers for Disease Control and Prevention (CDC), um importante organismo do governo americano, recomenda a vacinação (1) a todas os rapazes e raparigas entre os 11 e 12 anos; (2) a todos os jovens do sexo masculino entre os 13 e 21 anos que ainda não tenham recebido 3 doses da vacina; (3) a todas as jovens do sexo feminino entre os 13 e 26 anos que ainda não tenham recebido 3 doses da vacina.

Como se consegue perceber, a vacina contras as infecções do HPV é uma conquista importante, um forte aliado para prevenir infecções e cancros associados às variantes que a vacina confere protecção. Contudo, é ainda uma arma com custos elevados para países mais pobres, com sistemas de saúde mais débeis. A vacina ainda é recente, foi adoptada por diversos países em 2008. Embora seja segura e eficaz, é ainda alvo de vários estudos, não havendo um consenso universal a quem deve ser administrada e quando.

Miguel Oliveira

Sobre Miguel Oliveira

Miguel Oliveira é licenciado em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian – Universidade do Minho (2007). Pós-Graduado em Neuropsicologia de Intervenção pelo CRIAP/Associação Portuguesa de Neuropsicologia (2010). Atualmente exerce a profissão no Reino Unido.