Radioterapia: o efeito dos probióticos

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hApesar dos efeitos positivos da radioterapia na destruição das células cancerígenas, a exposição à radiação pode causar efeitos secundários, os quais podem aparecer semanas, meses ou anos após o tratamento.

A prevenção ou a redução das lesões nos órgãos e tecidos que se encontram no campo de aplicação da radioterapia são umas das preocupações clínicas, já que esses efeitos podem representar uma diminuição da eficiência do tratamento.

O aparecimento de efeitos secundários depende de vários fatores, como a dose total de radiação, o esquema de fracionamento dessa dose, o tipo e o volume de tecido irradiado e a sensibilidade individual à radiação de cada doente. Além disso, o sistema imunitário, o comportamento celular e o sistema de anulação dos radicais livres do indivíduo são importantes. Os radicais livres são o produto principal da interação entre a radiação e os tecidos do organismo, e que podem causar danos nos tecidos saudáveis.

A radioterapia é muito utilizada no tratamento de cancros localizados na zona pélvica, sendo comum o aparecimento de efeitos gastrintestinais durante ou pouco tempo após o tratamento. Estes efeitos podem tornar-se crónicos em 5 a 30% dos casos.

O efeito agudo mais comum da radiação a esta região é a diarreia, podendo afetar até 80% dos doentes. Esta manifestação clínica decorre de uma resposta inflamatória à radiação, de uma modificação da flora intestinal e de um achatamento das microvilosidades intestinais, o que diminui a atividade de compostos importantes ao normal funcionamento do intestino, reduz a capacidade de absorção de nutrientes e aumenta a velocidade do trânsito intestinal.

Assim, nestas situações, pode verificar-se uma absorção deficiente de proteínas, hidratos de carbono, gorduras, sais biliares, vitamina B12, bem como de água, o que pode favorecer o desenvolvimento de bactérias nocivas no intestino. Além disso, o doente pode apresentar dores abdominais, perdas de sangue, desidratação, fraqueza, com uma redução da qualidade de vida.

Probióticos são microrganismos vivos que têm efeitos benéficos na saúde do hospedeiro, quando administrados em quantidades adequadas. O uso de probióticos para preservar o normal funcionamento do intestino durante a radioterapia tem mostrado resultados promissores, já que têm mostrado contribuir para a prevenção e o controlo da diarreia secundária ao tratamento.

O mecanismo através do qual atuam ainda não está totalmente esclarecido mas pensa-se que os probióticos facilitam a produção de substâncias antibacterianas (citocinas e ácido butírico), inibem o desenvolvimento de espécies nocivas por diminuição do pH e por criarem um ambiente competitivo, diminuem a permeabilidade do intestino a estas espécies, estimulam as células imunitárias e estimulam a produção de lactase, o que, além de facilitar a digestão da lactose, favorece a flora intestinal.

A raditerapia também pode induzir alterações cardiovasculares, as quais constituem a principal causa de morte entre doentes que são submetidos a irradiação à região torácica. Estudos recentes demonstraram que os probióticos também podem ter um efeito terapêuticos nestes casos, por diminuírem o risco dessas alterações.

Outro estudo identificou uma estirpe de probióticos com efeitos protetores contra efeitos tóxicos a nível do fígado. Esses efeitos incluem a modulação da capacidade antioxidante do indivíduo, de compostos com efeitos na destruição das células e de danos no ADN.

Assim, os probióticos, quer pelos efeitos intestinais que provocam, quer por aumentarem a atividade imunitária, quer através da neutralização de toxinas, ou ainda através de outras vias, podem melhorar a eficácia da radioterapia. Geralmente, são agentes seguros mas podem ter alguns efeitos secundários, pelo que investigadores trabalham atualmente para definir quais as estirpes e em que doses deverão ser usadas numa intervenção nutricional mais eficaz dos doentes oncológicos em radioterapia.

Referências: Demers M, Dagnault A, Desjardins J. A randomized double-blind controlled trial: Impact of probiotics on diarrhea in patients treated with pelvic radiation. Clinical Nutrition. 2014; 33: 761-67. Abdollahi H. Probiotic-based protection of normal tissues during radiotherapy. Nutrition. 2014; 30: 495–496. Sharma S, Chaturvedi J, Chaudhari BP, Singh RL, Kakkar P. Probiotic Enterococcus lactis IITRHR1 protects against acetaminophen-induced hepatotoxicity. Nutrition. 2012; 28: 173–81. Timko J. Effect of probiotics on the fecal microflora after radiotherapy: A pilot study. Indian Journal of Pathology and Microbiology. 2013; 56(1): 31-35. Imagens: http://wp.clicrbs.com.br/viverbem/files/2013/10/probioticos2.jpghttp://www.meumetabolismo.com.br/wp-content/uploads/probioticos.jpg

Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.