Quimioterapia: quando a hipersensibilidade ao frio dificulta a alimentação

Quimioterapia e frioCertos fármacos usados em quimioterapia podem afetar os nervos periféricos, ou seja, as fibras nervosas motoras, sensoriais ou vasomotoras, causando fraqueza e atrofia musculares, dor e dormência.

Este estado é denominado de neuropatia periférica, estando relacionado com a administração, por exemplo, de agentes à base de platina, como a cisplatina, indicada para o  cancro do testículo e do ovário, e a oxaliplatina – cancro do cólon, estômago, ovário, mama e pulmão.

A dor associada a estes efeitos neurotóxicos pode ser prolongada, intensa e relativamente resistente à intervenção.

Os efeitos neurológicos causados pela cisplatina surgem de forma mais severa em doentes que recebem doses superiores a 400-500mg/m2 e dizem respeito a sensações anormais na pele das extremidades e perda de perceção sensorial.

A sintomatologia pode continuar até meses após o fim do tratamento e a sensação de dor pode, em alguns doentes, durar vários anos após o término da quimioterapia. Por seu lado, a oxaliplatina pode causar dois tipos de neurotoxicidade: uma de aparecimento nas primeiras horas após a administração, que atinge 80-100% dos doentes e que é reversível em horas ou dias; outra crónica, que atinge 15 a 20% dos doentes, semelhante à verificada com a cisplatina, associada a doses superiores a 750-800 mg/m2.

As manifestações clínicas da neuropatia periférica incluem alterações da sensibilidade, hipersensibilidade ao frio, dor, contrações musculares, diminuição/ausência de reflexos, fraqueza muscular e incapacidade funcional, as quais comprometem a qualidade de vida dos doentes. Um exemplo dessas alterações sensoriais é a dor quando os doentes comem, bebem ou seguram objetos frios, a qual pode atingir 26% até à totalidade dos doentes, segundo estudos realizados. Além da hipersensibilidade ao frio, alguns doentes queixam-se de dor ao morder os alimentos, devido a espasmos e/ou rigidez nos músculos envolvidos na mastigação, o que pode comprometer o estado nutricional.

Tendo em conta a eficácia do uso destes fármacos no controlo da doença oncológica, torna-se importante a prevenção destes efeitos secundários. Um estudo de 2007 sugeriu que a vitamina E, numa dose de 400mg/dia, pode ser benéfica na proteção contra estes efeitos em doentes tratados com cisplatina. No entanto, mais estudos devem ser desenvolvidos, antes desta intervenção ser implementada na prática clínica. Para o caso da prevenção dos efeitos neurotóxicos induzidos pela oxaliplatina, os agentes que parecem ser mais eficazes são o cálcio e o magnésio. Estes, administrados numa dose de 1g cada, antes e após o tratamento, têm mostrado melhorar significativamente a qualidade de vida dos doentes, no que diz respeito, entre outros, ao desconforto/dor ao engolir e aos espasmos musculares durante a mastigação.

Dado que estes estudos ainda são recentes e que, no caso da vitamina E, ainda é necessária uma investigação mais profunda, estas práticas preventivas não são habituais. Assim, torna-se importante acompanhar o doente oncológico no controlo da sintomatologia relacionada com a neuropatia periférica, recomendando-se:

  • Evitar o contacto com objetos a temperaturas extremas
  • Não ingerir bebidas frias ou recorrer a cubos de gelo, mesmo quando com náuseas
  • Preferir alimentos e bebidas à temperatura ambiente ou mornos, mesmo após alguns dias depois do fim do tratamento
  • Beber por uma palhinha
  • Usar luvas para retirar alimentos do frigorífico ou do congelador
  • Ter atenção aos objetos metálicos. Dar preferência a talheres de plástico
  • Para prevenir ou tratar feridas na boca, usar uma escova de dentes macia e bochechar 3 vezes ao dia, com 1/2 a 1 colher de chá de bicarbonato de sódio e/ou 1/2 a 1 colher de chá de sal em 230 ml de água
  • Manter uma nutrição adequada

 

Mathias HMC, Machado MCM, Rodrigues AC. Neuropatia Periférica em Pacientes com Câncer Colorretal em Tratamento com Oxaliplatina. Rev Neurocienc 2013; 21(3):435-448. Pace A, Carpano S, Galié et al. Vitamin E in the neuroprotection of cisplatin-induced peripheral neurotoxicity and ototoxicity. J Clin Oncol. 2007; 25(18S): 9114. Wójcik M, Matheus M. Perspectivas terapêuticas na prevenção da neuropatia periférica induzida por quimioterápicos (NPIQ). Rev. Bras. Farm. 2011; 92(4): 262-268. Fontes de imagens: http://doutissima.com.br/2014/07/06/veja-como-aliviar-os-sintomas-da-garganta-inflamada-com-remedios-caseiros-548211/ e http://www.wikihow.com/Know-when-to-Seek-Medical-Attention-for-Heartburn

Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas nº0204N, mestre em  nutrição  clínica  pela  Universidade  do  Porto  e  doutoranda  da  Faculdade  de  Medicina  da Universidade de Lisboa. Iniciou a sua atividade profissional em 2001 e, atualmente, a (...)