As controvérsias do consumo de leite

Em 1993 a Food and Drug Administration (FDA) aprovou o uso da hormona de crescimento bovina recombinante (Recombinant bovine growth hormone – rBGH), uma hormona sintética que permite o aumento da produção de leite na vaca.

O uso desta hormona levanta algumas questões relativamente aos potenciais efeitos na saúde humana. Na União Europeia, no Canadá e noutros países como Austrália e Nova Zelândia, a utilização desta hormona não é permitida desde 1999.

A hormona de crescimento bovina (BGH) conhecida também como somatotropina bovina (BST) é a forma natural produzida no gado. Após, a empresa de biotecnologia Genetech descobrir e patentear o gene da BST, nos anos 1970, tornou-se possível sintetizar esta hormona usando a tecnologia do DNA recombinante para criar a somatotropina bovina recombinante (rbST ou rBGH). Quer a hormona natural ou recombinante aumenta a produção de leite pelo aumento de uma hormona hepática, a insulin-like growth factor (IGF-1).

Em 1994, foi solicitado à comissão científica da União Europeia um relatório sobre a incidência de mastite e outras doenças em vacas leiteiras submetidas à ingestão de rBGH. O parecer da comissão, acatado pela União Europeia em 1999, foi de que o uso de rBGH aumenta substancialmente a incidência de problemas de saúde nos animais – problemas nas patas, mastite e doenças do aparelho reprodutor.

As hipóteses que se colocam acerca do uso da rBGH na produção de leite e as suas consequências na saúde humana, prendem-se a duas questões.

Primeira, a ingestão de leite de vaca, que é produzido com o uso desta hormona pode aumentar os níveis sanguíneos de hormona de crescimento ou de IGF-1 nos consumidores e, por consequência pode aumentar o risco de cancro; a segunda questão, e tendo em conta que as vacas tratadas com rBGH desenvolvem mais infeções (mastites), torna-se necessário à partida de uma maior dose de antibióticos, que por sua vez, aumenta a resistência bacteriana aos antibióticos. Este último efeito não foi ainda convenientemente estudado nos humanos.

No relatório publicado pela FDA acerca da segurança do uso da rBGH, concluiu-se que:

  • Nem a forma natural ou sintética da BGH afectam os receptores da hormona de crescimento humana;
  • A concentração de IGF-1 é ligeiramente superior (em graus variáveis dependendo dos vários estudos) no leite cujas vacas são tratadas com rBGH comparativamente ao leite proveniente das não tratadas. Esta variação é menor do que a variação de IGF-1 em gado bovino, que ocorre por factores naturais, mas a investigação não é suficiente;
  • A IGF-1 do leite não é inativada pela pasteurização. A quantidade de IGF-1 ativa absorvida pelo tracto gastrointestinal humano é ainda desconhecida;
  • Um único estudo afirma que, a quantidade absorvida de IGF-1 através de leite tratado com rBGH, assumindo que não ocorre degradação e o total é absorvido, é cerca de 0,09% da produção diária normal de IGF-1 no adulto.
  • Antes da aprovação do uso da rBGH em 1993, a FDA fez a previsão do pior cenário baseado na hipótese de uma criança beber 1,5 L de leite diário, com absorção completa de IGF-1 intacta. Nestas condições, leite tratado com rBGH contribui um pouco menos de 1% da produção diária normal infantil de IGF-1.
Referências: FReport on Animal Welfare Aspects of the Use of Bovine Somatotrophin. The Scientific Committe on Animal Health and Animal Welfare, European Union. [Online] 15-16 de Mrach de 1999. [Citação: 10 de Março de 2014.] http://ec.europa.eu/food/fs/sc/scv/out19_en.html.; Report on the Food and Drug Administration’s Review of the Safety of Recombinant Bovine Somatotropin. [Online] [Citação: 16 de Março de 2014.] http://www.fda.gov/AnimalVeterinary/SafetyHealth/ProductSafetyInformation/ucm130321.html
Fonte da imagem:http://www.mindbodygreen.com/0-10998/the-sour-facts-about-milk-what-every-parent-needs-to-know.html

Marisa Figueiredo, nutricionista licenciada em Ciências da Nutrição e mestre em Nutrição Clínica, pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz, iniciou atividade clínica em 2004. É doutoranda na Faculdade de Medicina de Lisboa no curso de Doenças Metabólicas e de Comportamento Alimentar. Desenvolve atividade docente desde 2007 e colabora frequentemente em ações de divulgação na promoção da saúde e prevenção das doenças crónicas. Dedica o seu trabalho à nutrição clínica, no adulto e na criança, com particular interesse pela alimentação e saúde infantil. Acredita que o seu trabalho deve assentar essencialmente na mudança de atitudes face a comportamentos que possam pôr em risco a saúde. A estratégia adoptada passa por fazer chegar a mensagem aos pais e seus educandos. A prevenção começa in útero. Colaboradora do Stop Cancer Portugal desde Janeiro de 2013. Por indicação do autor, os seus textos não obedecem ao novo acordo ortográfico.     Marisa Figueiredo is a nutritionist, graduated in Nutritional Sciences and has a Master degree in Clinical Nutrition of the Institute of Health Sciences Egas Moniz. Started her clinical activity in 2004. She is a PhD student in Metabolic Diseases and Feeding Behavior at the School of Medicine of Lisbon. Develops teaching activity since 2007 and collaborates frequently in actions and workshops for promoting health and preventing chronic diseases. His work is dedicated to clinical nutrition in adults and children, with particular interest in child´s health and nutrition. She believes that her work should be based on attitudes and behaviours’ changing and prevention begins in utero. Collaborates in Stop Cancer Portugal since January 2013.