Mantenha uma vigilância ativa

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No momento em que estou a escrever esta nota, tenho uma série de elétrodos “colados” na pele do peito que têm por missão fazer o registo contínuo do ritmo do meu coração durante 24 horas. Trata-se de uma ação preventiva e que foi de minha iniciativa, pese embora o facto do meu médico me ter dito que eu não precisava dessa avaliação. Só que eu quis e a minha vontade prevaleceu. Então, carrego comigo um monitor Holter.

Confesso que durante a primeira metade da minha vida fui vítima de frequentes “ataques de pânico” – situação altamente incómoda e assustadora que me fez correr para as “urgências” hospitalares uma série de vezes com a forte convicção de que estaria a ter um qualquer problema grave de saúde (e súbito), eventualmente um problema cardíaco. Os ataques de pânico deixam as pessoas extremamente ansiosas e amedrontadas, o que é a receita ideal para que se repitam. Cria-se um circulo vicioso!

Cansado de sofrer desse problema (que ocorria quando menos esperava, por vezes até em situações em que me sentia muito bem disposto) decidi um dia fazer um “check-up” e foi tudo isso que me motivou a realizar num curso superior de neuropsicologia clínica, em Espanha. Foi também o gatilho para eu me interessar pela neurociência (e os seus segredos).

Segundo os vários médicos que havia consultado, eu era “apenas” uma pessoa ansiosa e que tinha “um cérebro muito sensível”, o qual fazia uma varredura profunda do meu corpo, mantendo-me em constante estado de alerta (anos depois António Damásio falaria disso no livro “O Sentimento de Si“).

O corpo em estado de alerta

Ora o que é essa varredura? A melhor imagem que tenho deste tipo de processo é o dos ecrãs dos radares. Para os leitores que não sabem, trata-se de um monitor em que aparece uma imagem circular representando uma determinada área geográfica e em que uma espécie de ponteiro de relógio está constantemente rodando sobre a imagem em busca de informação. Esse “ponteiro” faz uma varredura constante ao “ambiente” detetando várias informações, nomeadamente anomalias, graças ao uso de antenas e outros sistemas de vigilância ativa sendo, por isso, muito úteis em meteorologia, na aeronáutica, na navegação e em muitos outros setores estratégicos.

No nosso corpo, o sistema imunitário, com o auxílio do sistema nervoso, faz constantemente essa varredura interna, realizando um trabalho de vigilância e entrando em alerta sempre que algo interrompa o equilíbrio orgânico (não esqueçamos que o nosso corpo é um sistema aberto exposto ao meio ambiente interno e externo pelo que necessita de ajustes constantes, como é o caso do ritmo cardíaco que acelera quando fazemos esforços).

Autovigilância da saúde

Várias enfermidades atacam silenciosamente durante anos sem quaisquer sinais da sua permanência. Em outros casos (talvez a maioria), são as pessoas que, inadvertidamente, estão a promover condições para o aparecimento de doenças e outras mazelas sem que disso tenham, todavia, consciência. Ou se têm, como também acontece, preferem ignorar as advertências e os sinais de alerta porque simplesmente se sentem, entretanto, bem.

A grande maioria das pessoas nasce para viver com saúde. É o estado de equilíbrio para o qual tende a vida. Contrariamente ao que se possa imaginar, parece que os genes desconhecem o envelhecimento e possuem aptidões que lhes garantem um percurso bem sucedido: têm capacidade para se reproduzirem imensas vezes dando origem a genes idênticos e transmitem-se de geração em geração, até mesmo de espécie em espécie, por enormíssimos períodos de tempo. Devido a esse conjunto de aptidões é que certos genes se mantêm inalterados desde há muitas centenas de milhões de anos, estando distribuídos pelas diferentes espécies de seres vivos.

Cada um de nós carrega em si todo um código genético que determina um conjunto de características a que podemos chamar personalidade (aqui entendida como o conjunto de aspetos biológicos, psicológicos e comportamentais que nos diferencia dos demais seres humanos) e que, em boa medida, é responsável pela nossa capacidade de resistência à doença. E isto acontece porque os genes têm como finalidade reproduzirem-se necessitando dos organismos para sobreviverem. Cumprida essa missão, que resulta na sua transferência (através da fecundação dos hospedeiros) para as gerações seguintes, o nosso envelhecimento é inevitável: a natureza, muito simplesmente, prescinde de nós e resta-nos a morte. Por enquanto.

Os genes “desejam” que os organismos sejam saudáveis e se reproduzam para que eles possam espalhar-se na população mantendo a continuidade da nossa espécie (o mesmo acontece com os outros seres vivos).

As muitas centenas de milhões de células dos nossos filhos contêm os genes que lhes transmitimos. Se forem bons terão mais probabilidades de gozarem de melhor saúde, terem filhos e viverem mais tempo. O contrário ditará, mais cedo ou mais tarde, problemas. São os genes que são responsáveis por muitas doenças, malformações e degenerências.

Não há desculpas

O nosso organismo está envolvido em milhões de processos biológicos de variada natureza de forma contínua e em qualquer situação (mesmo quando dormimos ou estejamos sob anestesia). São eles que fazem o nosso coração circular o sangue por todo o corpo transportando nutrientes vitais. São eles que nos permitem respirar, que nos fornecem o sono para recuperarmos as energias, que nos facultam aptidões como pensar, imaginar, falar, ver, ouvir e aprender. A lista de recursos e possibilidades que o organismo nos faculta é, de facto, imensa e variada. Permite-nos pois a experiência do viver – algo que poucos, muito poucos, recusarão.

É muito estranho aquele tipo de desculpas que algumas pessoas usam para justificar maus hábitos de saúde e que se resume à óbvia e inatacável constatação de que “para morrer basta estar vivo”. Por exemplo, os viciados em tabaco gostam de defender-se argumentando que há muita gente que é vítima de cancro do pulmão sem nunca ter pegado num cigarro como se isso bastasse para nos convencer de que tudo se resume a uma espécie de lotaria. Também os gulosos, os daquele estilo que só para de comer quando já tem o estômago pronto a rebentar, parecem ter prazer em desafiar os mais comedidos nestas questões de apetite com desculpas do género “não tenho de me preocupar, os resultados das análises que fiz no ano passado estavam excelentes”.

Infelizmente, o vício e a gula, tal como a soberba, costumam ter um preço elevado e não se importam de esperar. Mais cedo ou mais tarde chega a hora da verdade e o panorama pode ser tudo menos radioso 10 ou 20 anos depois.

A saúde é um bem precioso de mais para a negligenciarmos. Para a maioria das pessoas, a saúde está à frente da felicidade na escala das suas preocupações centrais. São estados que se relacionam entre si. Por isso é que as pessoas felizes têm geralmente melhores defesas imunitárias e vivem mais tempo. E a saúde é, por si só, condição necessária para aquela sensação de bem-estar e prazer de viver que está ligada ao sentimento de felicidade.

É sabido que cada pessoa reage de forma distinta àquilo de que se alimenta e às condições ambientais em que vive – fatores que, não sendo únicos, influenciam, porém, o estado de saúde.

Porque ficamos doentes?

As causas das doenças nem sempre são claras. Há detalhes de natureza hereditária, biológica e psicológica que tornam algumas pessoas mais resistentes (pelo menos durante mais tempo) aos ataques de vírus, bactérias, alergénicos, fungos, radicais livres, colesterol, pressão alta e muitos outros intrusos ou anomalias pouco recomendáveis. Não é invulgar encontrar-se pessoas que, tendo levado vidas problemáticas, com múltiplas contrariedades e alimentação desequilibrada, acabam por morrer de longevidade e não por causa de uma qualquer doença.

Outras situações também podem surpreender-nos mas por razões contrárias. É o caso de muitas pessoas jovens que, contra todas as expectativas e desafiando o seu aparente bom estado de saúde, morrem subitamente de ataque cardíaco.

Estes exemplos servem também para demonstrar que a capacidade do corpo humano para lidar com a doença é bastante flexível e individualizado.

De uma coisa, porém, não devemos ficar dependentes: do fator sorte. É que nenhum de nós, por muitos exames médicos que se façam, conhece suficientemente bem o corpo para saber o que nos pode acontecer nos próximos minutos ou num qualquer ponto do futuro.

Confiar no facto de haver pessoas “que comem de tudo”, “resistem a tudo” e só morrem de velhice é extremamente arriscado. Primeiro, porque a percentagem desses valentões é extremamente baixa; segundo, porque os fatores de risco são tantos que as melhores defesas são, neste caso, a prevenção e a consciência tranquila.

Envelhecimentos Ótimo

Acredite em mim. Estive para morrer antes dos 2 anos de idade devido a uma insólita doença do sistema imunitário (e de que tenho poucas informações), fui alvo da tristemente famosa gripe “asiática” durante a adolescência, não escapei a uma hepatite, a um melanoma e a uma peritonite nos meus 68 anos de vida, intercalados pelos malditos “ataques de pânico” e por muitas crises ocasionais de extrassístoles (felizmente benignas mas altamente desconfortáveis). Aliás, esta coisa das extrassístoles – descargas elétricas das células do coração fora de tempo e que provocam arritmia – é que me levaram aos cardiologistas…..logo aos 16 anos de idade. Já agora acrescento que também sofri um grave acidente de automóvel (fui piloto) e foi nesse episódio que sofri o primeiro e até agora único desmaio (sem mais mazelas a não ser um grande golpe no pescoço que curou em poucas semanas).

Se me perguntarem se me sinto com saúde, eu respondo: sim, apesar do que já vivenciei. Aliás, nunca me senti tão bem à medida que envelheço pois fui aumentando o meu nível de vigilância e melhorando o meu estilo de vida. Tornei-me vegetariano e sigo uma cuidadosa dieta de baixas calorias (sou, por isso, um “cronie”). Isso tem-me permitido também assumir diversas responsabilidades profissionais o que também ajuda na preservação da saúde e no atraso do envelhecimento.

Aprendi que a prevenção dá-nos maiores garantias de atingirmos e mantermos uma saúde ótima. E como a psique tem muito peso é desejável que consigamos manter uma consciência tranquila pois ela nos oferece uma boa dose de confiança e serenidade.

Nelson S. Lima

Sobre Nelson S. Lima

Professor Universitário e Investigador de Mental Performance (Inglaterra e Brasil). Conferencista sobre Saúde, Longevidade e Desenvolvimento. Formação superior em Neuropsicologia e Hipnologia Médica. Colaborou no Stop Cancer Portugal entre dezembro de 2012 e julho 2015. Por indicação do autor, os seus textos não obedecem ao novo acordo ortográfico.  


  Lecturer, researcher and writer of Science and Technology. Pro-Rector and teacher of Neuroscience at the University of the Future (Brazil and England). Registered in the British Science Writers Association (ABSW) and member of the Association for Psychological Science since 2001. Commissioner of Education Quality Accreditation Commission. Regular collaborator in several periodic publications. Collaborator member in the Stop Cancer Portugal since December 2012.