A glória de cada dia

A morte é uma inevitabilidade para todos. Todos o sabemos e todos o dizemos desta ou daquela maneira. Contudo, é duro conceber esta realidade com plena consciência. Olhar de frente para esta ancestral angústia da humanidade é uma tarefa de elevada exigência em termos psíquicos.

Só em raras excepções encontramos pessoas que parecem encarar esta inevitabilidade com plena consciência e, ainda assim, com serenidade.

Tenho tido a sorte de conhecer algumas dessas pessoas. Sobretudo pessoas de idade avançada, claro, pois a partir de uma determinada idade não confrontar a realidade da proximidade da morte é pura negação. Ainda assim, nem todos conseguem abordar esta questão com a sabedoria que se espera de um ancião.

Sempre que encontro alguém que está sereno perante a proximidade da morte, percebo que se trata de alguém que “abandonou” as ilusões, os véus que escondem aquilo que a vida realmente é e aprendeu a aceitar com a maior simplicidade aquilo que a vida lhe trouxe.

Percebo, então que a realização é um caminho individual e íntimo. Uma conversa de si para consigo. É um caminho, em parte solitário, mas que cada um de nós tem que trilhar.

Recentemente, assisti a um documentário sobre um artista que não foi reconhecido no seu tempo e só mais tarde soube que num país distante era idolatrado. Durante todos os anos em que não disfrutou da sua glória teve uma vida comum e dedicou-se a maior parte do tempo a trabalhar na construção civil. Quando lhe perguntaram a que se havia dedicado durante todos estes anos, respondeu que trabalhava na reconstrução de lares. A palavra que usou foi: “homes” o que em português significa “lares”. Poderia ter utilizado a expressão “houses”, traduzida como “casas”.

Não pude deixar de reparar nesta subtileza porque me pareceu que para este homem a reconstrução ou reabilitação de uma casa não era um simples trabalho de construção civil mas sim uma importante missão de reabilitação daquilo que para muitos de nós representa o nosso “ninho”, o nosso “refúgio”. Percebi, então como este homem sábio soube atribuir um sentido majestoso e sublime a uma tarefa que para muitos não teria assim tanta importância.

Nessa mesma entrevista quando perguntaram a este artista se não gostaria de ter disfrutado da glória e da fama em vez de ter tido a vida comum que teve, ele respondeu que não sabia se de facto a vida dele teria sido melhor do que foi, caso tivesse conhecido a fama e o reconhecimento. Provavelmente não teria sido melhor, porque este homem soube ver a glória dos seus dias apesar destes parecerem simples e comuns.

São grandes as lições de vida que recebemos de pessoas assim. Percebemos que não obstante a importância de sonharmos e de nos projetarmos no futuro indo atrás dos nossos sonhos, não podemos deixar ver todas as glórias que cada dia nos trás e de perceber que, por vezes, é nas experiências mais simples e triviais que reside a oportunidade de nos cumprirmos e realizarmos enquanto seres humanos.

Fonte da imagem: http://marilene-folhasfloresesutilezas.blogspot.pt/2014/07/sem-competicao.html

Rita Rosado

Rita Rosado nasceu em 1974 no Barreiro apesar de viver actualmente numa aldeia do Concelho de Tomar com a sua família. Licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa em 1997, é membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugu (...)