Quem canta…e dança…seus males espanta!

“Quem canta seus males espanta!” Cresci a ouvir este ditado popular. A minha avó dizia-mo sempre que me ouvia cantarolar e eram muitas as vezes em que isso acontecia… para espanto dos meus males!

Hoje quando vemos as gravações da série “Povo que Canta”, feitas para a RTP, por Michell Giacometti, nos anos 70, percebemos  que isto de cantar tem uma importância muito maior do que se possa imaginar. Perante a “dureza” da vida de trabalho que representava o dia-a-dia das velhas gerações rurais, cantar e por vezes dançar, tornava o fardo muito mais suportável. As pessoas nem sempre cantavam para serem ouvidas mas sim porque lhes era essencial para se concentrarem e também para se evadirem perante a exigência das tarefas pesadas e rotineiras que tinham que desempenhar.

Nestes contextos de trabalho, na agricultura ou na pesca, o canto aparecia como um mantra que se entoava deixando a mente daquelas pessoas num estado meditativo. Penso que o mesmo acontecia quando se organizavam bailes improvisados, por vezes ao relento, com o simples abrigo de uma árvore. No final de um difícil e intenso dia de trabalho, as danças mandadas ou outras danças tradicionais ajudavam a “purgar” todos os males e dos rostos sofridos irradiavam sorrisos.

Nas próprias cidades o canto aparecia como uma necessidade para qualquer pessoa comum. Recorde-se que foi nas ruas e tabernas de Lisboa que se começou a cantar o fado e assim era encontrada uma forma de se exprimir o que se sentia sobre a vida, tornando-a mais tolerável, sobretudo, quando esta era difícil.

À semelhança da realidade portuguesa mostrada por Giacometti também noutros cantos do mundo estas expressões eram encontradas. Tom Hodgkinson no seu “livro dos prazeres inúteis” refere: “Antes do tempo da rádio, todos nós costumávamos cantar, sem nenhuma excepção, o dia inteiro. Se andássemos pela rua na Florença de 1350, ouviriamos todos os artesãos e comerciantes a deitar cá para fora, a plenos pulmões, canções que eram tanto seculares como religiosas, temas tradicionais, elegantes cantigas de amor e poemas líricos de Dante. Mais tarde, a natureza sombria da época do puritanismo matou grande parte destas manifestações de alegria.”

Cantar e dançar são formas de expressão ao alcance de todos e que nos permitem revigorarmo-nos e encarar as dificuldades da vida com outra leveza, por isso, não se acanhe cante e dance como antigamente, pois quem canta…e dança… seus males espanta!

Fonte da imagem: http://www.comlive.net

Rita Rosado

Rita Rosado nasceu em 1974 no Barreiro apesar de viver actualmente numa aldeia do Concelho de Tomar com a sua família. Licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa em 1997, é membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugu (...)