Alimentação no controlo da dor em doentes oncológicos

Share on Facebook1.2kShare on Google+0Tweet about this on Twitter

Em doentes oncológicos paliativos, a dor e a desnutrição são comuns e relacionam-se num ciclo; quanto mais desnutrido, menor o limiar de perceção da dor (sente mais dor), o que conduz a uma menor ingestão alimentar e, logo, a um maior grau de desnutrição. Além disso, as doses de quimioterapia, calculadas em função da superfície corporal, são sub-ótimas, aumentando os efeitos adversos, como a dor.

Assim, as necessidades nutricionais devem ser avaliadas e os sintomas que impedem uma correta nutrição identificados.

A falta de apetite, a saciedade precoce e a dificuldade em engolir são frequentes, sendo difícil alcançar as necessidades nutricionais. Produtos que exigem uma mastigação mais prolongada, como algumas carnes e vegetais, produtos duros ou estaladiços, ou que sejam ácidos como algumas especiarias, o vinagre, alguns frutos e sumos, podem agravar significativamente a dor.

Isto acontece principalmente em doentes com uma mucosa mais débil após a radio ou quimioterapia, com boca seca e com doenças inflamatórias das gengivas e dos dentes. Uma das orientações é fazer refeições frequentes (8-10/dia) e pouco volumosas ( um volume máximo de 150-250ml).

A consistência deve ser mole/pastosa, sem partículas duras/afiadas (sopas, cremes, batidos, fruta passada, purés de vegetais, mousses, gelatina e queijos de pasta mole). A carne deve ser triturada e os alimentos ricos em hidratos de carbono, como os cereais de pequeno-almoço ou o pão, devem ser macios e ensopados em leite ou em caldos. Todavia, mesmo com estas estratégias, uma ingestão adequada pode ser difícil de atingir. Muitas vezes, é necessário fortificar a dieta com manteiga, mel, frutos secos, farinhas, carne/peixe triturados ou ovo ou através da introdução de fortificantes (pós ou soluções), sendo a primeira opção a usualmente melhor tolerada pelos doentes paliativos. Também os suplementos orais constituem uma opção.

Os doentes com inflamações orais deverão evitar as refeições com frutos naturalmente ácidos (citrinos e bagas, sumos dos mesmos, temperos picantes), pois estes podem desencadear ou exacerbar a dor. Bochechar com infusão de linhaça, de malmequeres ou salva pode ter um efeito calmante, anti-inflamatório e adstringente, diminuindo a dor.

No caso dos doentes com cancro avançado, as recomendações para a ingestão de fibra são menores do que para indivíduos saudáveis (15-20g contra 25-40g), pois uma dieta rica em fibras é pouco tolerada e agrava a obstipação, a dor abdominal e pode ser a causa de obstrução gastrintestinal. Isto aplica-se particularmente a doentes que comem pouco, estão desidratados, estão acamados ou a receber opióides. Os produtos ricos em fibra requerem uma mastigação mais longa, o que não é possível em grande parte dos casos, e aqueles que engolem porções de grande tamanho podem apresentar náuseas, distensão abdominal e vómitos. Além disso, a fibra capta vários nutrientes, reduzindo a disponibilidade para serem absorvidos, o que agrava a condição de doentes paliativos já desnutridos.

Um excesso de gordura e açúcares simples também poderá levar a um aumento da dor abdominal, náuseas, distensão abdominal, flatulência e diarreia, contribuindo ainda para uma sensação de saciedade e, logo, à diminuição da ingestão alimentar.

A intolerância à lactose é uma situação comum, usualmsente temporária, em resultado da radio e da quimioterapia. Manifesta-se por náuseas, dores abdominais, diarreia e distensão abdominal após a ingestão de leite e queijo. O iogurte apresenta níveis baixos, sendo bem tolerado e recomendável. Contudo, caso a sintomatologia se mantenha, será necessário retirar todos os laticínios e substituí-los por fontes vegetais de cálcio e proteína.

Os ómega 3 (peixes gordos, linhaça e nozes) são outros componentes da dieta importantes nestes doentes, já que têm efeitos anti-inflamatórios e analgésicos, contribuem para a destruição das células tumorais e aumentam a sensibilidade das mesmas à quimioterapia, diminuindo a toxicidade.

Lange E, Kapala A. Possibility of pain reduction by dietary intervention in patients with advanced cancer. Ann Agric Environ Med. 2013; 1: 18-22. Stuver SO, Isaac T, Weeks JC, Block S, Berry DL, Davis RB, Weingart SN. Factors associated with pain among ambulatory patients with cancer with advanced disease at a Comprehensive Cancer Care. J Oncol Pract. 2012; 8(4): 17-23. Imagem: http://washington.providence.org/clinics/providence-supportive-care/ [fonte/]

Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.