Deixe-se levar pela corrente

Como seria a sua vida, se pelo menos uma vez por ano, ousasse não fazer planos, não ter expectativas e não controlar nada mais do que o básico?

As férias são uma excelente oportunidade para colocar este estilo de vida em prática, mesmo que seja por um curto período de tempo.

A maioria de nós ocupa grande parte dos dias a cumprir horários, executar tarefas bem delineadas e a tentar atingir objectivos que previamente definiu ou que alguém definiu por nós. E, de facto, ter uma meta a alcançar motiva-nos a continuar e dá-nos a energia necessária para nos mantermos no nosso trilho. Mas… e se as coisas não correm exatamente como planeámos?

Na verdade, a nossa vida está cheia de situações em que nos deparámos com imprevistos e acabámos por ter de alterar as nossas intenções iniciais. O modo como nos posicionamos e vivenciamos essas experiências de imprevisto é determinante para o nosso bem-estar e crescimento pessoal.

Ser capaz de aceitar que algo que desejávamos não se concretizará e ser capaz de direcionar a jornada num sentido novo é sinal de maturidade e resiliência. Mais ainda: perceber que por vezes a nova direção que tomámos se vem a revelar uma opção bem mais adequada e que nos mostrou aspetos da vida inesperados mas enriquecedores é sinal de capacidade para acolher a novidade, disfrutando e tirando o maior partido possível dessa nova experiência.

As férias são uma oportunidade ideal para pormos à prova estas capacidades, pois podemos optar por nos pormos a caminho sem destino, planeando apenas o essencial.

Há algo de libertador no acto de viajar numa autocaravana, ou apenas com uma mochila às costas e um mapa para nos orientarmos (ou um GPS, se quiser uma opção mais actual). Podemos ficar mais dias num local que se venha a revelar surpreendentemente agradável ou partir mais cedo de um outro que afinal não correspondeu às expectativas. Aliás, se conseguirmos viajar com essas mesmas expectativas no mínimo, chegaremos ao fim da viagem com a sensação de que fizemos inúmeras descobertas gratificantes e inesperadas e jamais esqueceremos a sensação de liberdade e aventura que estas experiências nos proporcionaram.

Pelo menos uma vez por ano ofereça a si mesmo a oportunidade de se deixar levar pela corrente e verá que tal como no poema de Constantine Cavafy, Ithaca”, o importante é o caminho e não o destino que se espera alcançar.

Rita Rosado

Rita Rosado nasceu em 1974 no Barreiro apesar de viver actualmente numa aldeia do Concelho de Tomar com a sua família. Licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa em 1997, é membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugu (...)