Consumo de soja no cancro da mama

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soja A soja tem demonstrado capacidade para reduzir o risco de cancro da mama, sendo muito utilizada para diminuir as hipóteses de reaparecimento da doença. Todavia, esta temática tem sido alvo de controvérsia, face aos supostos efeitos estrogénicos da soja.

Os estrogénios são hormonas existentes na mulher, aos quais as células do cancro da mama recorrem para se desenvolverem. Nos casos de positividade para os recetores hormonais, a hormonoterapia impede esse acesso.

A soja contém isoflavonas, as quais se assemelham ao 17-β-estradiol, o estrogénio mais ativo na mulher em idade reprodutiva. Assim, as isoflavonas ligam-se aos recetores de estrogénio (RE), comportando-se como reguladoras; interagem com os RE estimulando ou inibindo a sua ação, dependendo das concentrações de estrogénio. Quando são similares a níveis pré-menopausa, as isoflavonas têm um efeito inibidor e, perante níveis pós-menopausa, um estimulador.

Além disso, a soja inibe o fator de crescimento vascular endotelial (estímulo para o crescimento de novos vasos sanguíneos, como os necessários ao crescimento tumoral) e favorece a morte das células cancerígenas.

As isoflavonas mostram preferência por RE-β, comparativamente aos RE-α, sendo esta a forma avaliada no tratamento das doentes e aquela sobre a qual o Tamoxifeno atua. Isto é importante, pois os RE-β parecem estar associados aos efeitos antiproliferativos e anticarcinogénicos, ao passo que os RE-α parecem favorecer a formação e desenvolvimento do cancro.

A controvérsia sobre o assunto baseia-se na contradição de estudos realizados com células e com animais; alguns mostram que as isoflavonas podem aumentar o crescimento das células tumorais, outros mostram o contrário. Uma revisão de 258 artigos sobre o efeito da soja no cancro da mama sugere que o consumo pode proteger do desenvolvimento de cancro da mama e diminuir o reaparecimento da doença e a mortalidade. Todavia, são necessários estudos com um maior número de participantes e a longo prazo. São, também, necessários trabalhos que incluam hormonoterapia e/ou que identifiquem os possíveis subgrupos de mulheres que podem beneficiar da soja, tendo como base a situação face aos RE (positivos/negativos). Entretanto e uma vez que o efeito da soja, se existente, parece ser protetor, um consumo moderado pode ser seguro e, possivelmente, benéfico para a maioria das mulheres. Pode, ainda, ser possível que a soja possua, de facto, atividade anti-estrogénica, já que um consumo elevado parece estar associado ao aumento da prevalência de afrontamentos entre mulheres pré-menopáusicas com cancro da mama.

Apesar de a soja não ter demonstrado efeitos estrogénicos nem sobre a densidade mamária, a qual se associa ao risco de cancro da mama, a possibilidade deste alimento ter efeitos idênticos aos do estrogénio sob certas circunstâncias em certos grupos de mulheres não pode ser ignorada. Há que considerar o consumo de soja em mulheres que recebem terapêutica hormonal, não havendo, teoricamente, risco de interação baseada na ligação competitiva para o recetor, dado o tamoxifeno e as isoflavonas terem preferência por diferentes RE. Estudos com animais indicam mesmo que as isoflavonas podem aumentar o efeito da hormonoterapia e que podem reduzir o desenvolvimento da resistência ao tamoxifeno. Apesar disso, deve ser tido algum cuidado na ingestão de soja, aquando o tratamento hormonal, até que haja dados que demonstrem a sua segurança.

Os estudos realizados ainda não respondem a todas as questões sobre os efeitos da soja ou da suplementação com isoflavonas no cancro da mama mas os estudos observacionais sugerem que uma ingestão aumentada de soja (6-11g de proteína de soja; 25-50mg de isoflavonas) pode proteger contra o desenvolvimento e o reaparecimento da doença e da mortalidade, sendo, apesar disso, necessária alguma atenção à suplementação com elevadas doses de isoflavonas.

Referências: Andres S, Abraham K, Appel KE, Lampen A. Risks and benefits of dietary isoflavones for cancer. Crit Rev Toxicol. 2011; 41: 463-506. Cho YA, Kim J, Park KS, Lim SY, Shin A et al. Effect of dietary soy intake on breast cancer risk according to menopause and hormone receptor status. Eur J Clin Nutr. 2010; 64: 924-932. Fritz H, Seely D, Flower G, Skidmore B, Fernandes R, Vadeboncoeur S, Kennedy D, Cooley K, Wong R, Sagar S, Sabri E, Fergusson D. Soy, Red Clover, and Isoflavones and Breast Cancer: A Systematic Review. PLoS One. 2013; 8(11): e81968. doi: 10.1371. Harris DM, Besselink E, Henning SM, Go VL, Heber D. Phytoestrogens induce differential estrogen receptor alpha- or Betamediated responses in transfected breast cancer cells. Exp Biol Med. 2005; 230: 558-568. Kang X, Zhang Q, Wang S, Huang X, Jin S. Effect of soy isoflavones on breast cancer recurrence and death for patients receiving adjuvant endocrine therapy. CMAJ. 2010; 182: 1857-1862. Fonte da imagem: http://mulhereser.wordpress.com/tag/menopausa/

 

Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.