Cancro da Mama: fertilidade após quimioterapia

Apesar de ser mais frequente em mulheres após a menopausa, o cancro da mama é também o mais frequente em mulheres em idade reprodutiva. Dados revelam que 10-15% dos novos casos de cancro de mama correspondem a mulheres abaixo dos 44 anos, pelo que o tema da gravidez após o diagnóstico da doença tem sido largamente debatido. Na população em geral, é crescente o número de mulheres a engravidar depois dos 35 anos mas aquelas com história de cancro da mama, além de assistirem ao comprometimento da sua vida face à doença, vêm na mesma uma ameaça para constituírem ou completarem família, já que, a longo prazo, a quimioterapia põe em causa o normal funcionamento dos ovários.

Investigadores de um estudo no âmbito da prevenção da menopausa precoce (Prevention of Early Menopause Study – POEMS) divulgado a 30 de maio deste ano descobriram uma forma mais eficaz de preservar a fertilidade de mulheres jovens em tratamento ao cancro da mama.

Neste estudo, mulheres pré-menopáusicas com cancro da mama com recetores hormonais negativos referenciadas para quimioterapia, com idades compreendidas entre 18 e 49 anos, foram distribuídas aleatoriamente por dois grupos; um ao qual seria administrada goserelina a cada 4 semanas e outro a que o mesmo fármaco não integrava o plano de tratamentos. A goserelina reduz a produção de estrogénios, colocando as mulheres numa menopausa química, a qual é, normalmente, reversível. O POEMS foi desenvolvido, então, para verificar se o tratamento permitia às mulheres a recuperação da fertilidade após o tratamento oncológico, não interferindo com a terapêutica.

Fertilidade após quimioterapia ao cancro da mamaOs investigadores compararam a taxa de “falha” dos ovários das doentes participantes dois anos após terem entrado do estudo e verificaram que 22% das mulheres sujeitas à terapêutica standard (grupo controlo) apresentaram falhas no funcionamento dos ovários, comparativamente a 8% das que receberam goserelina (grupo de intervenção). Além disso, das 218 doentes participantes, 11% das mulheres do grupo controlo engravidaram contra 21% do grupo de intervenção.

A estratégia habitual para a preservação da fertilidade em mulheres jovens com cancro é a colheita e o armazenamento de tecido do ovário, de folículos ou de embriões antes do tratamento oncológico, pelo que a descoberta de uma forma simples e acessível para proteger a fertilidade sem prejudicar os resultados terapêuticos tem uma grande importância. De acordo com este estudo, essa forma pode passar pela administração de goserelina.

Assim, este estudo mostrou que as mulheres em idade reprodutiva sujeitas a quimioterapia colocadas em menopausa temporária (via goserelina), tinham duas vezes maior probabilidade de terem uma gravidez normal, após o tratamento, comparativamente às mulheres participantes que não receberam o fármaco, sem prejuízo da sua condição oncológica.

Moore HCF, et al. Prevention of Early Menopause Study (POEMS)/S0230, a Phase III Trial of LHRH Agonist Administration During Chemotherapy to Reduce Ovarian Failure in Early Stage, Hormone Receptor-Negative Breast Cancer: An International Intergroup Trial of SWOG, IBCSG, ECOG, and CALGB (Alliance). ASCO abstract LBA505. ClinicalTrials.gov URL:http://www.clinicaltrials.gov/ct2/show/NCT00068601. Almeida JPM, Carnide C, Sousa R, Pereira-da-Silva D. Pregnancy after breast cancer: dream or reality?. Acta Obstet Ginecol Port 2013; 7(1):36-41. Imagem: http://blogs.babycenter.com/mom_stories/08192013pregnant-and-still-recovering-from-stage-3-breast-cancer/ 

Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas nº0204N, mestre em  nutrição  clínica  pela  Universidade  do  Porto  e  doutoranda  da  Faculdade  de  Medicina  da Universidade de Lisboa. Iniciou a sua atividade profissional em 2001 e, atualmente, a (...)