Químicos de origem vegetal no tratamento do cancro

Fitoquímicos e cancroDesde o início da década de 40 do século XX, a investigação de fármacos para o tratamento do cancro resultou na descoberta de mais de 50 drogas. Contudo, a maioria delas pode originar efeitos secundários severos, com grande impacto físico e emocional para o doente.

De forma a diminuir esses efeitos, a comunidade científica tem pesquisado novos fármacos, o que tem resultado na descoberta de propriedades anticancerígenas de vários compostos existentes em vegetais, os fitoquímicos.

O aumento de reaparecimento de tumores e os vários efeitos secundários dos fármacos usados em quimioterapia reduzem a eficácia clínica da grande maioria das drogas anticancerígenas que são atualmente usadas. Desta forma, existe uma necessidade constante de desenvolver compostos alternativos ou complementares com o mínimo de efeitos secundários.

Uma estratégia importante para o desenvolvimento de fármacos anticancerígenos é estudar os agentes que atuam contra o cancro e que podem ser obtidos através da Natureza. Compostos anticancerígenos e seus derivados oriundos de plantas têm mostrado ser eficazes para a prevenção e terapêutica do cancro. Os polifenóis são uma das classes de fitoquímicos mais importantes com estas características, além das excelentes propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. O modo como os polifenóis atuam contra o cancro ainda está a ser estudado. Todavia, já é claro que estimulam a destruição das células cancerígenas e a inibição do crescimento das mesmas, atuando, para tal, em cada uma das fases do processo de formação do cancro, de forma a prevenir a propagação da doença.

Além do referido, o desenvolvimento da resistência do tumor às drogas é um dos maiores obstáculos no caminho para atingir os resultados favoráveis da quimioterapia. Dentre as várias estratégias que têm sido exploradas para ultrapassar esta situação, a combinação da quimioterapia com polifenóis tem mostrado ser promissora em estudos laboratoriais com células cancerígenas e com animais. Alguns estudos têm sugerido que os polifenóis inibem, no interior das células, a atuação de moléculas responsáveis pelo crescimento do tumor e pelo desenvolvimento da resistência aos fármacos. Assim, os polifenóis vegetais podem ser um dos mecanismos contribuidores para um efeito de aumento da sensibilidade à quimioterapia e, logo, para obtenção de melhores prognósticos.

Os fitoquímicos com interesse na prevenção e tratamento da doença oncológica incluem, por exemplo, o epigalocatequina-3-galato (que se pode encontrar no chá verde), a genisteína (por exemplo na soja), a curcumina (no açafrão), o resveratrol (nas uvas vermelhas), o sulforafano e os isotiocianatos (nas crucíferas), o licopeno (no tomate), a luteolina (na cenoura e no azeite), a apigenina (nas maçãs, uvas, cerejas, aipo, nozes), a quercetina (cebola roxa, maçãs, bróculos, frutos vermelhos, acelgas, pimentos verdes, uvas) e o ácido tânico (no vinho tinto, no café). Alguns destes e outros polifenóis têm um efeito considerável no ultrapassar da resistência a vários fármacos usados em quimioterapia, em vários tipos de tumores, desde os carcinomas e sarcomas até à doença oncológica do foro da hematologia.

É importante que a comunidade científica continue a investigar a ação dos fitoquímicos no cancro, pois são necessários mais estudos para analisar o perfil de segurança das doses, da forma de administração, da especificidade para determinados órgãos e da biodisponibilidade dos polifenóis em humanos. Certo é que utilizações medicinais ancestrais e a evidência científica existente reforça fortemente o uso destes componentes da dieta para a descoberta e desenvolvimento de novos fármacos na prevenção e terapêutica da doença oncológica.

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Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista, membro efetivo da Ordem dos Nutricionistas nº0204N, mestre em  nutrição  clínica  pela  Universidade  do  Porto  e  doutoranda  da  Faculdade  de  Medicina  da Universidade de Lisboa. Iniciou a sua atividade profissional em 2001 e, atualmente, a (...)