A microflora intestinal no cancro da mama

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Revisitando a importância da microflora intestinal no cancro da mamaA ação da microflora intestinal sob as fibras tem um efeito benéfico no cancro da mama e na sua prevenção. Contudo, este efeito da microflora surge, também, por outras vias.

Alguns estudos indicam que parece haver uma relação direta entre níveis elevados de estrogénios no sangue e um risco aumentado de mulheres pós-menopausa de desenvolverem cancro da mama.

Os ácidos gordos saturados são a fonte de colesterol usado pelos ovários para a produção de estrogénios. Em mulheres pós-menopausa, os androgénios são transformados em estrogénios, que são inativados no fígado, através da sua conjugação, sendo integrados na bílis e transportados para o intestino. Aí, o destino destes estrogénios conjugados depende da composição da flora intestinal; os indivíduos com uma microflora capaz de desconjugar os estrogénios irão absorvê-los, aumentando a sua quantidade no sangue, e, naqueles em que a flora intestinal é menos favorável à desconjugação, a excreção dos estrogénios pelas fezes estará facilitada. Ora, uma vez que a dieta tem um papel importante na constituição da flora intestinal, influenciará a criação de um ambiente bacteriano que facilitará a absorção dos estrogénios para a corrente sanguínea ou a sua eliminação.

Dietas ricas em gorduras e carne vermelha contribuem para a produção e libertação de ácidos biliares (constituintes da bílis) para o intestino, pois são necessários para a digestão e absorção da gordura. As bactérias do intestino atuam sobre esses ácidos, originando produtos que estimulam o crescimento de Proteobacteria e de Fusobacterium nucleatum.

A E. coli (uma das espécies de Proteobacteria) produz enzimas que desconjugam os estrogénios, contribuindo, então, para um nível sanguíneo mais elevado. Além disso, espécies de Fusobacterium nucleatum são capazes de destruir linfócitos em desenvolvimento, o que resulta numa diminuição do número de linfócitos maduros circulantes. Ora, uma flora intestinal que destrua linfócitos pode influenciar os resultados do cancro, pois doentes com um baixo número destas células, na altura do diagnóstico, parecem ter pior prognóstico.

Outros estudos mostram que a relação entre neutrófilos e linfócitos é capaz de predizer o prognóstico a longo prazo da doença oncológica, em que relações mais elevadas predizem resultados piores, independentemente da idade do doente ou do estadio da doença na fase de diagnóstico.

Num estudo com doentes com cancro da mama em estádios iniciais, uma relação neutrófilos-linfócitos superior a 2,5 foi associada ao quádruplo do risco de recorrência da doença em 10 anos, comparativamente a doentes com uma relação inferior a 2,5, independentemente da idade ou estadio ao diagnóstico. Um estudo retrospetivo com 316 doentes com cancro da mama mostrou que uma relação neutrófilos-linfócitos superior a 3,3 ao diagnóstico estava associada a um risco 44% superior de morte nos 5 anos seguintes, comparativamente às doentes que apresentavam uma relação inferior a 1,8. Também outro estudo com mais de 2000 doentes com cancro da mama nódulo-positivas, ou seja, mulheres em que foram encontradas células cancerígenas provenientes do tumor em nódulos linfáticos, mostrou que, quando mais de 50% estroma tumoral (um dos “compartimentos” dos tumores sólidos) estava infiltrado com linfócitos, havia um risco reduzido da doença retornar e de morte. Por cada aumento adicional de 10% na percentagem de linfócitos, o risco de recorrência foi 17% inferior e o risco de morte foi 27% inferior, independentemente do estadio ao diagnóstico e da idade da doente.

Outro papel importante da microflora baseia-se no facto do sistema imunitário do doente oncológico poder ser capaz de, após quimioterapia, contribuir para a redução do tumor. As células T CD8+ são as estruturas imunitárias mais potentes na destruição de células do cancro da mama e uma flora intestinal normal contribui para o seu desenvolvimento.

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Dina Raquel João

Sobre Dina Raquel João

Dina Raquel João, nutricionista é mestre em nutrição clínica pela Universidade do Porto. Além da atividade de docência, exerce nutrição clínica em regime de clínica privada e dedica-se sobretudo à intervenção nutricional no doente oncológico.