“É para amanhã? Bem podias fazer hoje.”

procrastinaçãoO refrão desta canção de António Variações, ouvida vezes sem conta nos anos 80, é o mote perfeito para nos levar a refletir sobre uma atitude que nos afeta a todos, em maior ou menor grau. Por vezes com grande desconforto e grandes consequências: a procrastinação.

O termo deriva da palavra em latim: “procrastinatus” (“pro” significa: à frente e “crastinus” significa: amanhã) e consiste, essencialmente, em adiar uma ação. De um modo geral todos o fazemos e por vezes é perfeitamente legítimo ou até desejável. A dificuldade surge quando esse adiamento passa a gerar desconforto ou até ansiedade. Com frequência adiamos as tarefas que nos são desagradáveis ou como Freud referia, regemos o nosso comportamento pelo princípio do prazer em detrimento do princípio do dever. Esta atitude é particularmente comum nas crianças e compreende-se pela sua imaturidade emocional. Cabe-nos a nós adultos apoiá-las na gestão dessas emoções para que venham a desenvolver a capacidade de adiar as recompensas e resistir à frustração (inevitável na nossa condição existencial). Mas e quando nós adultos procrastinamos?

É mais comum do que possa parecer à primeira vista. O dia-a-dia é exigente, é verdade. Somam-se tarefas infindáveis e rotineiras e inevitavelmente, vamos adiando um conjunto de tarefas que poderiam, por exemplo, pôr em marcha a realização de muitos projetos que sentimos que poderiam conferir mais significado à nossa vida. Vamos inventando desculpas para justificarmos o adiamento, as quais muitas vezes mascaram as nossas inseguranças ou o nosso perfecionismo. E assim, vamos somando sonhos por realizar.

Sejamos realistas, na maior parte das vezes a vida até nos dá tudo o que realmente precisamos e, se olharmos para as coisas de uma outra perspetiva acabamos por concluir que já realizámos mais do que alguma vez suponhamos que iriamos realizar. Na verdade, a nossa realização pode advir de coisas bem simples. Contudo, adiar continuamente os nossos projetos sem sequer mobilizarmos esforços mínimos para os colocarmos à prova, só contribui para reforçarmos a sensação de “incumprimento do nosso destino” que em nada contribui para o nosso crescimento interior, pelo contrário, alimenta o nosso sentimento de impotência perante a vida. Mas e se falharmos? E se descobrirmos que o nosso sonho é irrealizável?

Se falharmos ou se descobrirmos que teremos que abandonar um sonho, teremos descoberto algo muito importante sobre nós: que somos suficientemente corajosos para convivermos com a nossa imperfeição. Saberemos quais são os nossos limites e sobretudo que somos capazes de abandonar um sonho para abraçar outro. Pois a capacidade de sonhar é surpreendentemente ilimitada.

Vamos lá! Comece com algo simples. Enfrente aquele sótão lá de casa que anda há anos para ser arrumado. Ou se gostava de cantar, inscreva-se numa escola de música. Experimente! Gostava de escrever? Porque não iniciar um blog? Pode começar já hoje. E a dieta que tanto precisa de fazer para melhorar a sua saúde e perder os quilos a mais? Simplesmente comece. Se tiver algum deslize pode erguer a cabeça e retomar os seus intentos. E mesmo em relação àquelas decisões mais difíceis, que o obrigarão a mudanças mais profundas e que anda a ponderar há tanto tempo. Algum dia terá que fazer algo. Poderá não ser fácil mas depois de enfrentar a situação terá pelo menos o alívio de ter deixado de adiar eternamente essas decisões e talvez até tenha a agradável surpresa que é a descoberta da sua capacidade de transcender as dificuldades e aprender com elas, crescendo como ser humano.

Rita Rosado

Rita Rosado nasceu em 1974 no Barreiro apesar de viver actualmente numa aldeia do Concelho de Tomar com a sua família. Licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa em 1997, é membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugu (...)