Anita recusa-se a comer! – distúrbios alimentares na criança

Share on Facebook54Share on Google+0Tweet about this on Twitter

boy and cooked vegetablesDizia-me há dias uma colega no trabalho: “preciso mesmo de falar consigo, a minha irmã está desesperada porque a filha, tem um pouco mais de 2 anos e, simplesmente recusa-se a comer“.

O desespero de muitas mães… Afinal, o que estarão estas mães a fazer de errado?

Os distúrbios alimentares mais reconhecidos clinicamente incluem:

  • atraso no desenvolvimento da habilidade de comer;
  • dificuldade em tolerar ou digerir alimentos ou líquidos
  • recusa na aceitação de novos alimentos, sabores ou texturas;
  • falta de apetite ou interesse pelos alimentos;
  • utilização de comportamentos alimentares como forma de manter o seu espaço de conforto.

Dados de prevalência, apontam para que cerca de 25 a 45% das crianças experienciaram alguma forma de alteração alimentar, no entanto, a maioria dos casos são transitórios e não têm significado clínico.

A etiologia da recusa alimentar correlaciona-se frequentemente com as etapas de crescimento e desenvolvimento e com a influência dos pais no cumprimento do ritual da alimentação.

À medida que a criança se desenvolve, torna-se necessária a introdução de novos alimentos. É geralmente nesta fase que se desenvolve a “neofobia“, isto é, a relutância em consumir novos alimentos na primeira oferta. Muitos pais interpretam erradamente esta primeira relutância como uma aversão a determinado grupo de alimentos. Fato é que se a criança tiver oportunidade de provar o alimento repetidamente, intensifica a aceitação.

No segundo ano de vida, a alteração passa pelo comportamento alimentar selectivo. Crianças com esta caraterística apresentam um consumo limitado de alimentos, com preferência por produtos láteos e papas, por determinadas técnicas de preparação e apresentação, assim como o consumo de determinadas marcas mediante o reconhecimento do rótulo. A seletividade manifesta-se sob a forma da tríade: recusa alimentar, pouco apetite e desinteresse pelo alimento.

Estudos apontam que muitos dos problemas alimentares não dizem respeito ao ato de alimentar em si, mas são decorrentes de conflitos oriundos de relações intrafamiliares. Muitas vezes pais e filhos elegem o momento da refeição como a hora ideal para mostrar os seus conflitos, angustias e dificuldades, instalando um ciclo vicioso, onde a criança tenta exercer com seu comportamento, um tipo de domínio sobre a situação e a família.

Como reagir quando a criança se recusa a comer?

De um modo geral, os pais devem ser orientados sobre:

  1. respeitar o direito da criança ter preferências e aversões;
  2. oferecer os alimentos em quantidades pequenas para encorajar a criança a comer;
  3. não forçar a criança a comer, assim como não oferecer recompensas e agrados, atitudes que reforçam a recusa alimentar e desgastam pais e filhos;
  4. não utilizar subterfúgios tais como o famoso “aviãozinho” visto que tais atitudes desviam a atenção e comprometem a perceção dos alimentos;
  5. não demonstrar irritação ou ansiedade no momento da recusa, a criança deve sentir-se confortável no momento da refeição;
  6. as crianças devem receber a refeição na mesa com a família, permite aprender maneiras à mesa, criar laços de família mais fortes, faz da hora da refeição um período agradável;
  7. se a refeição está atrasada ou existem convidados a criança deve receber a refeição à hora do costume;
  8. evitar comentários desfavoráveis em relação a alimentos;
  9. apresentar os pratos de maneira agradável, evitando a monotonia alimentar;
  10. participação da criança durante a preparação dos alimentos e na composição do seu prato, uma atitude que incentiva a criança a comer e a estimula a participar das tarefas domésticas;
  11. respeitar as oscilações passageiras de apetite;
  12. não disfarçar os alimentos, para que a criança saiba o que está a comer, favorecendo a aprendizagem e a identificação de texturas e sabores.

A utilização de estimulantes do apetite, sob a forma de suplementos vitamínicos e minerais só são recomendados quando a criança apresenta alguma deficiência nutricional.

Referências: Carruth, B.R. e cols. The phenomenon of “picky eater”: a behavioral marker in eating patterns of toddlers. J Am Coll Nutr; Borrero, C. S. W., e cols. Descriptive analyses of pediatric food refusal and acceptance. J of applied behavior analysis; Waugh R., Markham L., Kreipe R. E., Walsh,B. T. Feeding and Eating Disorders in Childhood – Review Article. Int J Eat Disord; Andrade, T. M. e cols. Crianças que não comem: um estudo psicológico da queixa materna. Rev Paul Pediatria.

Marisa Figueiredo

Sobre Marisa Figueiredo

Marisa Figueiredo é nutricionista e mestre em Nutrição Clínica, pelo Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz. É doutoranda na Faculdade de Medicina de Lisboa no curso de Doenças Metabólicas e de Comportamento Alimentar. Dedica o seu trabalho à nutrição clínica, no adulto e na criança, com particular interesse pela alimentação e saúde infantil. A prevenção começa in útero.