“Less is More”…a liberdade de uma vida minimalista

minimalista“Less is More”: Esta frase de um poema de Robert Browning, publicado em 1855, refere-se criticamente à pintura de Andrea del Sarto, um artista conhecido pelas suas excelentes capacidades técnicas que se revelavam numa  pintura quase perfeita mas ironicamente destituída de alma. Esta expressão foi mais tarde adoptada pelo Arquitecto Ludwig Mies der Rohe para descrever a sua arquitectura minimalista onde o objectivo é expor a essência ou identidade de um tema através da eliminação de todas as formas não essenciais. Desde então e sobretudo na actualidade esta frase e os princípios do minimalismo têm vindo a ser relembrados cada vez mais para dar voz a um movimento que pretende mostrar que todos os excessos consumistas das últimas décadas nos conduziram a um estilo de vida que afinal não nos deixou mais felizes, apesar das promessas sedutoras da publicidade veiculada através dos media.

A busca por uma vida mais simples e frugal, do ponto de vista material, aparece desde há muito tempo em várias culturas mas é especialmente evidente na cultura tradicional japonesa, particularmente na filosofia zen que associa os conceitos de desapego e liberdade na busca pela essência da vida. Estes conceitos podem guiar-nos em tempos difíceis pois dão-nos a oportunidade para reflectirmos sobre o que é essencial e acessório na nossa vida quer do ponto de vista material, quer do ponto de vista dos nossos valores, das nossas escolhas, das nossas relações afectivas e no fundo da nossa filosofia e estilo de vida.

Com simplicidade mas, também com bom senso, experimente a rever as suas prioridades em termos materiais, para começar. Será que precisa mesmo de dez pares de botas e sapatos a atravancar-lhe o roupeiro? E precisa mesmo dos vinte conjuntos de lençóis que guarda no armário mas que nunca usou? E o que dizer do tempo e energia que tem que gastar a limpar mais um armário que entretanto comprou porque já não tinha espaço para guardar mais um serviço de copos que queria tanto mas que só usa uma vez por ano? Sim, é compreensível que queira guardar aquela jarra porque foi a sua avó que lhe deu. Assim lembra-se dela, mas será que se esqueceria da sua avó se não tivesse a jarra? E que sentido faz guardar algo que a recorda de um ente querido se depois esse objecto fica anos e anos guardado e longe da sua vista e sobretudo sem utilização?

Na era do consumismo desenfreado em que vivemos não nos teremos esquecido do limite? Os objectos nem sempre são só objectos, é certo, pois a partir do momento em que lhes atribuímos um determinado valor simbólico e significado passam a desempenhar um papel importante na nossa vida interior mas a partir do momento em que nos tornamos dependentes desses objectos como se eles fossem um prolongamento de nós mesmos corremos o risco de perdermos a nossa capacidade de nos sentirmos bem, plenos e felizes apenas pelo que somos e não pelo que temos e todos sabemos que menos bem estar se traduz por vezes em menos saúde. Libertar-se de excessos materiais, e não só, pode permitir-lhe recuperar uma sensação de liberdade que é por si só uma enorme riqueza.

Rita Rosado

Rita Rosado nasceu em 1974 no Barreiro apesar de viver actualmente numa aldeia do Concelho de Tomar com a sua família. Licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa em 1997, é membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugu (...)