Devagar se vai ao longe!

devagar

Há alguns anos atrás decidi, sem pensar muito sobre o assunto, deixar de usar relógio e por exagerado que pareça, senti que me estava a libertar.

Tratava-se de um gesto simples mas que para mim, marcava o início de uma mudança simbólica. O acto de olhar continuamente para o meu relógio de pulso fazia-me sentir aprisionada e ansiosa. Era como ter uma voz ao ouvido que irritantemente me dizia: “já são horas disto”, “já são horas daquilo”, “já estás atrasada”, “não vais ter tempo”.

Claro que percebi que o relógio não era o culpado, o problema estava na correria, despropositada, em que vivia e em que vivemos quase todos. Acordamos de repente com um relógio a tocar, saltamos da cama, apressamos as crianças, não temos tempo para tomar o pequeno-almoço, vamos a correr para a escola, para o trabalho, almoçamos a correr, por vezes “fast-food”, por vezes, de pé, porque não há tempo para nos sentarmos. Chegamos ao trabalho já cansados, porque, entretanto dormimos pouquíssimo na noite anterior e, claro que não nos importamos se a paisagem circundante é um amontoado de edifícios em betão cinzento, porque não temos tempo nem disposição para apreciar a paisagem.

Esta descrição, ilustra com grande realidade o dia-a-dia de milhões de pessoas pelo mundo fora. Particularmente, nos países ditos “desenvolvidos”. E nesta repetição incessante, vão passando horas, dias, semanas, meses, anos da nossa preciosa vida.

Onde, quando e porquê nos deixámos transformar em autómatos? Onde nos vai levar toda esta correria? Estas terão, eventualmente, sido algumas das questões que ecoaram nas mentes dos fundadores do “movimento slow” que surgiu como um “grito” de contestação e libertação quando o jornalista italiano Carlo Petriini fundou, nos anos 80 do século XX, a “slow food” em oposição à abertura de um conhecido restaurante de “fast food” em Roma.

A ideia da “slow food” era promover o consumo de produtos alimentares locais, da época (de acordo com os ritmos naturais) e respeitando as tradições gastronómicas de cada região. Os anos 80 do século XX foram também ricos na promoção de um estilo de vida urbano, supostamente dinâmico, produtivo e eficaz.

Os símbolos desta época eram os jovens executivos bem vestidos, com um bom carro, uma bela casa e sempre em acção. Apareciam nos anúncios publicitários sempre com pressa, a executarem múltiplas tarefas em simultâneo. Apareciam ao telefone, ao mesmo tempo que conduziam e comiam. Esta era a imagem do sucesso. Em contraponto o movimento slow foi-se ramificando. Surgiram os movimentos: “slow work”, “slow love”, as “slow cities” e muitos mais. A ideia subjacente é reclamar o nosso direito a viver ao nosso ritmo próprio. No fundo o direito a uma existência mais saudável, feliz e com sentido.

É preciso pôr pé a fundo no travão e abrandar o ritmo, com toda a força do nosso querer. Dê tempo a si próprio e pare de correr porque esse caminho não vai dar a lado nenhum! Experimente nem que seja por apenas um dia, acordar um pouco mais cedo com uma música agradável, sentar-se a tomar o pequeno-almoço com a família, ir a pé para o trabalho, ou sair do autocarro uma paragem antes e contemplar o que se passa ao seu redor, comer sentado, mastigar com calma, falar com calma, escutar e fazer apenas uma coisa de cada vez. Parece tão simples, não é? Então, porque razão não o fazemos?

Se se sente assoberbado pelas múltiplas tarefas que preenchem os seus dias, simplifique a sua vida e abrande o ritmo. Separe o “trigo do joio” e elimine da sua lista todas as tarefas que, talvez, não sejam assim tão essenciais e reclame tempo para si mesmo.

Vá ver o pôr-do-sol, deite-se na relva com os seus filhos e contemple o céu, demore-se e deguste calmamente a sua comida e o seu vinho favoritos.

A casa não está exemplarmente arrumada, a camisa não está exemplarmente engomada, mas lembre-se: quando um dia fizer um balanço sobre o que foi a sua vida não lamentará não ter feito nenhuma dessas coisas, lamentará sim, ter deixado de saborear calmamente todos os simples prazeres que a vida proporciona, sempre, e a todos.

Fontes:http://movimientoslow.com/pt/filosofia.html;http://www.slowmovement.com/

Rita Rosado

Rita Rosado nasceu em 1974 no Barreiro apesar de viver actualmente numa aldeia do Concelho de Tomar com a sua família. Licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa em 1997, é membro efetivo da Ordem dos Psicólogos Portugu (...)