Prevenir para não “morrer de desgosto”

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Prevenir o adoecer psíquico Todos temos recordações de infância que nos ficaram mais ou menos gravadas na memória e hoje gostaria de falar de uma delas: a expressão “morrer de desgosto”.

Recordo-me de ouvir esta expressão quando alguém se referia a pessoas que se encontravam em processo de luto e que faleciam.

Sempre me causou muita curiosidade e penso que hoje compreendo bem o sentido e a importância deste fenómeno, pois sinto que há uma grande verdade nesta expressão.

É hoje aceite pela comunidade científica, o impacto que a depressão e a ansiedade têm no nosso sistema imunitário. Contudo, sempre me pareceu excessivo dizer-se que tal impacto poderá por em risco a própria vida, até ao momento em que tomei conhecimento de o número de cônjuges que padecem de cancro, um após o falecimento do outro, é considerado significativo do ponto de vista estatístico.

Este dado vale o que vale e nem sequer pretendo discutir a legitimidade desta conclusão, o que me parece que não pode passar despercebido é a importância a dar à forma como os familiares de doentes de cancro lidam com a perda e com o seu próprio processo de luto, sob pena de verem a sua saúde mental mas também a sua saúde física comprometida.

E prevenir o cancro passa também por prevenir o adoecer psíquico.

O luto é um processo inevitável e a sua duração é variável. Para alguns, ou talvez para todos os que passam pela perda de um ente querido a dor é suavizada com a passagem do tempo mas a saudade é permanente e é preciso lembrar o quão importante é não nos furtarmos à vivência das emoções que estão naturalmente presentes neste processo.

Como referiu poeticamente Miguel Esteves Cardoso (In: “Último Volume”): “… a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada.”

O luto é um processo pessoal e arrisco-me a dizer que é um processo íntimo, contudo, por vezes não é possível fazer uma travessia difícil sem ajuda. Para isso servem os amigos, a família mas quando tal não é suficiente é preciso saber ler os sinais e procurar outras formas de apoio, tais como grupos de apoio, psicoterapia individual ou de grupo, psicodrama, arte terapia, psicanálise, técnicas de relaxamento, meditação, visualização criativa, apoio espiritual, etc.

As possibilidades são imensas e o que fará sentido para uns poderá não fazer sentido para outros. Uma coisa é certa, acredito que a maioria de nós procura, acima de tudo uma vida longa e plena de sentido e bem-estar e que tal é possível alcançar mesmo quanto tudo parece perdido. A história da humanidade está plena de exemplos de sobrevivência nas condições mais atrozes. Aceitemos, então a inspiração desses exemplos para não nos deixarmos “morrer de desgosto”.

Rita Rosado

Sobre Rita Rosado

Rita Rosado licenciou-se em Psicologia Clínica pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa (1997). Concluiu o Mestrado em Ciências da Educação – Formação de Adultos em 2007. Trabalha na área de Orientação Profissional e o seu interesse pela problemática da prevenção do cancro aprofundou-se após a experiência que vivenciou enquanto familiar de doentes de cancro.