Cancro do testículo: A história de Lance Armstrong

Tour de France

O apelido Armstrong está intimamente ligado a feitos históricos e memoráveis. Lance Armstrong, como se pode deduzir, não é excepção. No seu site oficial pode ler-se que “Se fosse um guião de Hollywood, a história seria classificada como melodrama: uma doença mortal ameaça um atleta promissor.” Mas recuemos um pouco…

Lance Armstrong nasceu em Setembro de 1971, no estado americano do Texas. A sua paixão pelo desporto levou-o, inicialmente, a praticar natação, mas foi no triatlo (combina natação, ciclismo e corrida) que representou os EUA e se foi afirmando como atleta de alta competição. No entanto, a sua habilidade para o ciclismo não passou despercebida e inicia o seu percurso de ciclista no início da década de 90.

A carreira de Armstrong estava a consolidar-se, com vários troféus conquistados mas, tal e qual um guião de Hollywood, uma sucessão de acontecimentos vieram colocar em risco a sua carreira e a própria vida. Durante algumas semanas apresentou sinais inflamatórios (dor, inchaço) na virilha, que não foram valorizados. A sintomatologia foi evoluindo até aos vómitos com sangue, perdas de visão e as cefaleias. Em Outubro de 1996, aos 25 anos, foi-lhe diagnosticado cancro do testículo com metastização pulmonar, abdominal e cerebral, ou seja, algumas células do tumor no testículo deslocaram-se e alojaram-se no pulmão, abdómen e cérebro, causando novos tumores.

O cancro do testículo manifesta-se através da (I) dor ou tumefacção do testículo, (II) presença de nódulos no testículo, (III) emissão de pus pelo pénis, (IV) aumento de tamanho de um testículo ou de ambos, (V) sensação de desconforto ou peso na virilha e escroto.

Armstrong ignorou os primeiros sinais de alerta, o que permitiu que o cancro evoluísse. Na altura do diagnóstico, a probabilidade de ele sobreviver à doença era baixa, apenas de 20%. No entanto quando diagnosticado cedo, este cancro é curado em cerca de 90% dos casos.

Perante este panorama, Lance Armstrong foi obrigado a deixar o ciclismo e iniciou o tratamento: numa primeira fase, foi submetido a cirurgia para a remoção do testículo – orquidectomia, e seguiram-se vários ciclos de quimioterapia. Mais tarde, foi submetido a nova cirurgia, desta vez para remoção do tumor cerebral. Durante este período de tratamento, cria a sua própria fundação, mais conhecida por Livestrong, com o intuito de apoiar as pessoas com cancro. O tratamento instituído revelou-se eficaz e a doença entrou em remissão total.

O apelo e a paixão pelo ciclismo foram mais fortes e, em 1998, pouco mais de 2 anos após o diagnóstico, reinicia os seus treinos. Ainda nesse ano corre na Vuelta a España ficando em quarto classificado, mas é em 1999 que se inicia o seu grande marco: durante 7 anos consecutivos, de 1999 a 2005, venceu a Tour de France. Após essa conquista decide abandonar a competição profissional.

Armstrong volta à competição em 2008 tendo em mente um objectivo, aumentar a consciência global para o cancro. Para além disso, o dinheiro que angaria com as suas prestações e outras actividades é destinado quer à sua fundação, quer a outras instituições de apoio e divulgação do cancro. Porta-voz de uma vivência única e exemplo vivo não só da luta contra uma doença, mas da vida para além dessa luta e de tudo o que ainda é possível alcançar. No próximo dia 3 de Julho, com 38 anos, vai correr novamente na Tour de France, tendo ficado no ano passado em terceiro lugar. Volto a relembrar, todo este sucesso foi alcançado por alguém que tinha apenas 20% de probabilidade de sobreviver…

Apesar de representar cerca de 1% de todos os cancros que afectam os homens, o cancro do testículo é uma das principais causas de morte de homens entre os 15-35 anos. No último quarto de século, o número de afectados triplicou. Ainda não são conhecidas as causas, mas sabe-se que a história familiar de cancro do testículo é um factor de risco.

Por isso, cabe a si estar atento aos sinais e sintomas e a inspeccionar a região genital, através do auto-exame testicular.

Miguel Oliveira

Miguel Oliveira, natural de Braga, licenciado em Enfermagem pela Escola Superior de Enfermagem de Calouste Gulbenkian – Universidade do Minho (2007), com passagem por Itália na área oncológica ao abrigo do programa de intercâmbio Europeu ERASMUS. Formador com CAP (2008), Pós-Graduado em Neuro (...)